Sabrina Noivas 127 - Denim & Diamond
 
Ela era uma esperana...
Anos antes, quando no passava de 1 adolescente, Piper Diamond brincou com fogo tentando seduzir o charmoso Kyle Masters. Embora ele ansiasse por concretizar a promessa de provar aqueles lbios at ento intocados, sua hombridade levou-o a rejeit-la. Kyle era jovem demais, inocente demais e... inexperiente!
Ele era um sonho!
Agora,8 anos depois, Piper est de volta, esperando 1 beb e apavorada com a perspectiva de ter de criar o filho sozinha. Alm de um carter irrepreensvel, Kyle tem todas as qualidades que Piper admira em 1 homem:  generoso, dedicado... exatamente a pessoa que est faltando em sua vida. Mas para Piper, o atraente e sexy Kyle Masters, concordar com um casamento de convenincia no  o suficiente... pois Piper est  procura de um marido de verdade!

Digitalizao e correo: Nina
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2001
Publicao original: 2000
Gnero: Romance contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida
Srie Diamond Family
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	A Diamond for Kate
BD 733 - Eterno Como o Diamante	Dec-1999

2	The Family Diamond
	Feb-2000

3	Denim & Diamond
Sabrina Noivas 127 -
Um Sonho a Mais!	Jul-2000


      

CAPTULO I

	Desculpe-me! Eu no quis assustar voc.
Piper Diamond sentiu a respirao parar quando reconheceu a voz profunda e ressonante.
Estava visitando os estbulos da fazenda de seus pais na Califrnia, localizada nos arredores de Kincade, quando ouvira passos se aproximando. Virara-se esperando ver o irmo, mas o homem alto atrs dela no era Spencer.
Embora fizesse oito anos que no via Kyle Masters, teria reconhecido aquelas belas feies morenas e os tempestuosos olhos cinzentos em qualquer lugar.
	Pensei que fosse Spencer  exclamou Piper, quando o beb dentro de seu ventre deu um chute forte.
	Spencer estar conosco em um minuto  replicou Kyle, abaixando o olhar para a barriga protuberante onde a mo direita de Piper estava pousada. Por um fugaz momento, ela captou uma fasca de emoo nas profundezas dos olhos dele.
	Voc certamente est aqui para ver Firefly  concluiu Piper, tentando ignorar seu pulso acelerado.
	Sim  respondeu Kyle, mas no fez nenhum movimento em direo  cocheira onde estava a gua.  Ento os boatos que ouvi na cidade so verdadeiros. Meus parabns!  Os olhos cinzentos se fixaram nos dela, a expresso indecifrvel.
	Obrigada  disse Piper, perguntando-se, no pela primeira vez, por que Kyle Masters a deixava to perturbada. Anos atrs, tivera uma queda por ele e se lembrava de tudo muito bem: daquele amor divertido, dos dias despreocupados, quando bastava v-lo para que seu corao disparasse, exa mente como estava acontecendo agora
	Para quando  o beb?
	Para meados de novembro  respondeu Piper, desejando no ter escolhido justamente aquele momento para ir aos estbulos. A companhia dos cavalos sempre a acalmava, mas a presena de Kyle estava surtindo efeito contrrio.
	Piper! Ento  aqui que voc est!  exclamou Spencer, juntando-se a eles.  Ah... estou vendo que voc encontrou Kyle. Kyle, voc se lembra da minha irm, Piper?
	Sim, claro!  respondeu Kyle.
Ao detectar o tom divertido na voz dele, Piper sentiu um sbito calor subir-lhe ao rosto, e a lembrana do ltimo encontro deles lhe veio  mente.
	Se vocs me do licena  acrescentou Kyle , vou dar uma olhada em Firefly. Prazer em rev-la, Piper.  Ele abriu a porta da cocheira da gua.
	Vamos l, maninha. Levo voc de volta para casa.  Spencer passou o brao na cintura,da irm e a conduziu para fora.
	Kyle vem aqui na fazenda com frequncia?  Piper se aventurou a perguntar, enquanto caminhavam no gramado, sob a tarde ensolarada.
	Ele vem aqui uma vez por semana na temporada de corridas, ou se uma das guas est prenha  respondeu o irmo.
	Suponho que ele esteja trabalhando com Henry Bishop agora  disse ela, lembrando-se que Kyle ajudara temporariamente na clnica veterinria no vero em que ela se formara na faculdade. Naquele vero, quando se comportara como uma tola rematada.
	Henry se aposentou. Mudou-se para o Arizona h trs anos para morar com a irm  contou Spencer.  E como eles trabalharam juntos muito tempo, Kyle assumiu o comando da clnica.
	Ele est casado?  perguntou Piper em tom casual, curiosidade a invadindo.
	Divorciado.
Ela olhou surpresa para o irmo, mas Spencer no pareceu notar sua reao.
	Ele no comenta muito o assunto  continuou Spencer.  Tem uma filha, April, que  uma gracinha, de quatro anos.
	Com que frequncia ele a v?
	Ela mora com ele  respondeu Spencer.  Kyle ficou com a custdia. Voc deve se lembrar da esposa dele, Elise Crawford. Ela estava alguns anos adiantada na faculdade em relao a voc.
Piper forou a memria, lembrando-se da loura exuberante.
	Mas ela no tinha ido morar em Nova York para ser artista?  perguntou ela.
	Exatamente  confirmou Spencer.  Mas no teve muita sorte e voltou para casa pouco antes da morte da me. Foi depois disso que eles comearam a namorar.
	Entendo.
	Todavia, Elise ainda estava na expectativa de uma oportunidade no meio artstico, e poucos dias aps o nascimento de April, recebeu um telegrama e no vacilou em arrumar as malas e retornar para Nova York.
	Deve ter sido duro para Kyle ser abandonado com uma criana recm-nascida para tomar conta  disse Piper.
	Ele no  de se queixar  disse Spencer.  E acredite-me, teve milhes de motivos para isso. Eu imagino que no foi fcil tocar um negcio e educar a filha, sozinho.
	Atualmente isso  normal. Muita gente consegue conciliar famlia e profisso  comentou Piper, tentando convencer a si mesma de que no havia motivo para sentir pena dele.
	Isso  verdade. Mas  difcil para Kyle. Quando ele pensa que tudo est se encaixando, aparece um novo problema. H um ms, por exemplo, a recepcionista dele pediu demisso e Kyle est tentando arrumar algum para substitu-la. Colocou anncio em diversos jornais, mas at agora no apareceu ningum.
Eles se aproximaram da escada da ampla varanda que circundava o andar trreo da casa da fazenda.
	Agora, chega de falar sobre Kyle. Eu estou mais preocupado com voc  continuou Spencer.  Voc est aqui h uma semana e ainda no me contou nada  reprovou ele, gentilmente.  No quero que acontea a mesma coisa que ocorreu em junho passado, quando voc esteve aqui e mal tivemos a chance de conversar por causa da confuso do meu casamento. Voc certamente j estava grvida naquela ocasio, no? Por que no nos contou, Piper?
Piper esboou m sorriso.
 Porque, seu bobo, era o grande dia para voc e para Maura e eu no queria roubar as atenes. No seria justo.
Alm do mais, ela estava com problemas srios naquela ocasio, principalmente pelo fato de que, antes de sair de Londres para assistir ao casamento de Spencer, tinha rompido com Wesley Adam Hunter, o pai de seu beb.
Dera graas a Deus que a agitao e atividade envolvendo o casamento do irmo tivessem desviado a ateno de sua pessoa. Por trs meses seguidos, ningum notara que estava grvida e ela no contara a ningum, ainda tentando, ela prpria, aceitar o fato.
Quando o mdico lhe informara que a causa dos enjoos frequentes no estava relacionada com gripe, Piper tinha ficado abalada. Na verdade, a icfia de se tornar me a deixara extremamente ansiosa.
Sendo a caula da famlia, tivera muito pouco contato com crianas pequenas. Nunca tivera nem mesmo um emprego como baby-sitter, o que era muito comum entre as moas. Sua profisso sempre estivera em primeiro lugar, e mesmo tendo observado diversas amigas se casando e constituindo famlia, continuara pensando que aquilo nunca faria parte de sua lista de prioridades.
Para falar a verdade, era o iminente nascimento do beb que a deixava apavorada. E no falara de seus temores para ningum, nem mesmo para a me.
Sabia que dar  luz era uma ocorrncia normal e natural e que milhares de mulheres passavam por isso todos os dias, mas no conseguia acostumar-se com a ideia.
Tentou convencer a si mesma de que estava sendo ridcula, que seria uma experincia maravilhosa e memorvel, mas mesmo assim nada diminua o medo enraizado dentro dela.
	E Wes? Ele deve estar contente.  O comentrio do irmo trouxe os pensamentos de Piper de volta ao presente.
 Ele vai ficar com voc, no vai? Ou estar ausente em outra de suas ousadas misses? Espero que voc tenha lhe contado que apanhou o buque de Maura, o que significa que ser a prxima a se casar.
Repentinamente, a emoo apertou a garganta de Piper, ameaando sufoc-la.
	No vai haver casamento algum  declarou ela comcoragem.  Wes est morto. Sofreu um acidente na sia enquanto eu estava aqui para o seu casamento. Eu s tomei conhecimento disso quando voltei para Londres.
O choque de Spencer era evidente em sua face.
	Piper... Deus meu! Eu sinto tanto!  Ele a abraou com fora por um longo tempo e ento a afastou para fit-la nos olhos.  Eu no me recordo de ter lido nada nos jornais.
O sorriso de Piper revelava uma ponta de amargura. A famlia de Wes acobertou o assunto.
	Por qu? O que aconteceu?
	Aparentemente ele andou bebendo com um grupo de jovens militantes  explicou ela.  Voc conhecia Wes, sempre procurando uma notcia diferente, sempre tentando, de alguma forma, meter-se em assuntos alheios. Billy Brown, outro reprter que tambm estava l atrs da mesma matria que Wes, foi me procurar em Londres depois que voltei. Ele me disse que os jovens estudantes tinham desafiado Wes para uma corrida de carro.
	E, naturalmente, ele aceitou.
Piper assentiu.
	Wes nunca fugiu a um desafio e no ia ser daquela vez. Ele derrapou numa curva e saiu da estrada. E por causa das circunstncias que envolveram o acidente, tudo que apareceu na imprensa foi um pequeno anncio, dizendo que ele havia morrido em um acidente de carro.
	Voc deveria ter nos telefonado.
	E dizer o qu?  reagiu ela.  Alm disso, voc e Maura estavam em lua-de-mel e eu precisava de tempo para lidar com os meus prprios problemas.
		Mas voc no deveria ter enfrentado isso sozinha  reprovou Spencer.  Para isso  que serve a famlia, para dar apoio nos momentos difceis.
Piper calou-se, principalmente porque estava se debatendo com as verdadeiras emoes que sentia, e que ameaavam transparecer na sua expresso.
No havia contado ao irmo sobre a terrvel briga que tivera antes da partida de Wes para a sia. Apesar de a descoberta da gravidez a ter chocado a princpio, acreditava que o fato de estar esperando um filho dele os reaproximasse, ajudasse a superar a crise no relacionamento.
Quando contara a novidade a Wes, contudo, a reao dele fora contrria  que ela esperava. Piper duvidava que algum dia pudesse esquecer a expresso de desdm no olhar de Wes quando ele lhe perguntara se tinha certeza de que o filho era dele. Ao se lembrar disso, novas lgrimas inundaram seus olhos.
	Medo, minha anjinha corajosa?  murmurou Spencer carinhosamente, usando o apelido que ele lhe dera quando ela era uma garotinha e tentava desesperadamente equiparar-se aos irmos mais velhos. Puxando-a para si, ele a envolveu novamente nos braos.  Ns a amamos. Voc sabe disso.
Estamos aqui para o que der e vier.
Piper desvencilhou-se dos braos do irmo.
	Por que voc pensa que eu vim para casa?  replicou ela, a voz embargada de emoo.
	Oh... a vem Kyle.
Piper apressou-se em enxugar as lgrimas e voltou-se para observar Kyle se aproximando. S ento notou que ele no mudara quase nada nos ltimos oito anos.
Piper permitiu que seu olhar percorresse vagarosamente o corpo atltico de Kyle, desde as longas pernas, que apesar de cobertas por uma cala jeans, revelavam coxas musculosas, passando pelo ventre liso at os ombros largos, realados pela camiseta preta. Contrariada, reconheceu que ele ainda era o homem mais bonito que ela j conhecera, e sua estatura de um metro e oitenta e trs s contribua para torn-lo mais atraente.
	Tudo certo com Firefly?  perguntou Spencer.
	Est em tima forma  assegurou Kyle.  Eu voltarei para examin-la na prxima semana.
	timo. Vejo voc ento. Ah... e boa sorte na procura por uma recepcionista  acrescentou Spencer.
	Obrigado.  Kyle sorriu melancolicamente.  No momento, eu me contentaria com algum at mesmo por meio perodo. A papelada do escritrio est uma baguna, e com tanta coisa para fazer, estou sem tempo para organizar aquilo tudo.
	Talvez Piper pudesse ajud-lo  sugeriu Spencer, voltando-se para ela.  O que voc me diz, maninha?
Pega de surpresa, Piper no conseguiu pensar numa resposta adequada. De repente, a atmosfera  volta deles parecia carregada de tenso.
Kyle quebrou o silncio.
	Obrigado, Spencer, mas estou certo de que sua irm no apreciaria algum monitorando seu trabalho.
	Bobagem!  replicou Spencer.  Alm do mais, seria at uma distrao para ela. No  mesmo, Piper?
Ambos a olharam como se estivessem esperando que falasse alguma coisa, e Piper sentiu o rosto queimar.
	Bem, eu...  ela comeou, seus pensamentos em caos enquanto tentava arquitetar uma recusa educada. Encontrou
o olhar resignado de Kyle e soube que ele tinha certeza deque ouviria um "no".  Ficaria muito feliz em ajudar, temporariamente,  claro.  Com uma certa satisfao, Piper notou um brilho de surpresa nas belas feies de Kyle.
Foi a vez de Kyle gaguejar.
	Hum... bem, obrigado, mas eu no queria impor nada. Ademais, realmente preciso de algum com experincia contbil.
	Piper  a pessoa certa  afirmou Spencer.  Ela e uma amiga so scias em um estdio fotogrfico em Londres, e Piper  a responsvel pela contabilidade. No , Piper?
	Sim  respondeu ela.
	Muito obrigado  replicou Kyle, embora no parecesse nem ao menos impressionado.  Eu aprecio a oferta, mas...
	Entendi que voc estava precisando de algum com urgncia. Alm disso, voc estaria me fazendo um favor  disse Piper, aborrecida com a ameaa de recusa dele. Ela lanou-lhe o que esperava ser um sorriso vitorioso.  O beb s nascera daqui a oito semanas e, como Spencer disse, seria uma distraao para mim  acrescentou de sbito, consciente de que aquilo era verdade.
	Eu... bem...  Kyle hesitou e Piper quase riu alto ao ver a expresso dele.
Spencer bateu nas costas do amigo.
	Deixarei vocs dois sozinhos para discutir os detalhes. Tenho que voltar aos estbulos. Vejo voc na prxima semana, Kyle.
	Ento, quando voc quer que eu comece?  perguntou Piper docemente, percebendo pelo maxilar rgido de Kyle que ele no estava exatamente satisfeito com o rumo que as coisas tinham tomado.
	Tem certeza de que seu marido aprovar que voc comece um trabalho, especialmente nessa altura da gravidez?
Piper respirou fundo, buscando palavras para comentar, mais uma vez, o assunto que a deixava triste.
	No h marido algum para aprovar ou desaprovar. Alis, nunca houve. O pai do meu beb morreu  informou ela, com voz trmula.
	Sinto muito  lamentou-se ele, claramente arrependido da provocao.
	Ento, quando quer que eu comece?
	A clnica est aberta todo fim de semana, das nove ao meio-dia.
	timo. Vejo voc l amanh cedo, s oito e meia.  Virando-se, ela subiu a escada da varanda.
Eram oito e quinze da manh seguinte quando Piper parou no estacionamento ao lado do prdio de dois andares que abrigava a clnica veterinria, a dois quarteires da rua principal de Kincade.
Permaneceu sentada por um momento na caminhonete que emprestara do irmo, lembrando-se do tempo em que tinha doze anos e encontrara um gatinho machucado na estrada quando voltava para casa aps a escola. Ela pegara o animal ensanguentado e cuidadosamente o carregara de volta para a cidade.
Embora a clnica estivesse fechada, Kyle atendera  batida frentica na porta e imediatamente a conduzira para dentro. Depois de tratar do animal ferido, elogiara a atitude dela e a rapidez com que agira perante a situao. Piper irrompera em lgrimas e Kyle a confortara, depois de telefonar para seus pais e informar-lhes onde ela estava e o motivo de seu atraso.
Em contraste com a atitude desse dia, no entanto, Kyle Masters no tinha sido nem bondoso nem compreensivo na noite em que ela fizera papel de tola completa, tentando seduzi-lo.
Piper deixou de lado a lembrana constrangedora. No sabia direito o que a levara no s a concordar como a insistir em ajudar o homem que a humilhara anos atrs. Talvez quisesse apenas provar a Kyle e a si mesma que ele no tinha mais o poder de afet-la.
Com um suspiro, saltou da caminhonete e atravessou o estacionamento. Quando virou a esquina do edifcio, dois cachorros, um Doberman e um Terrier, vieram correndo cumpriment-la, abanando o rabo. Piper notou, surpresa, que faltava uma perna traseira no Terrier, mas que isso no o impedira de alcan-la primeiro.
Ela sorriu.
	Ol, vocs dois!  Piper brincou com eles, tentando evitar que pulassem em sua roupa limpa.
	Mutt! Jeff! Venham!  A voz autoritria era de Kyle.
Quando ele apareceu na porta de entrada, os cabelos negros ainda molhados do banho cintilavam ao sol da manh. O jaleco branco que ele usava em cima da camiseta e da cala jeans acrescentava um ar de profissionalismo a sua aparncia.
Piper ignorou os batimentos acelerados de seu corao enquanto cruzava a curta distncia at a porta da clnica. Os ces correram para dentro e desapareceram.
	Bom dia.
	Bom dia  respondeu Piper.  Mutt e Jeff! Que nomes estranhos!
	Foram os nicos que me ocorreram na ocasio  explicou ele, um sorriso velado no rosto.  Voc est adiantada.
	Se isso  problema, posso voltar mais tarde  ironizou ela. 
	Voc tem certeza de que quer assumir o trabalho?  perguntou ele abruptamente, os olhos cinzentos encarando-a.
	Sim, tenho certeza.
Ela precisava de distrao, precisava ocupar a mente com alguma coisa alm dos problemas que vinha enfrentando ultimamente.
Uma tenso quase palpvel vibrava entre eles. Kyle foi o primeiro a desviar o olhar.
	Entre  convidou, afastando-se para ela passar.  Vou lhe mostrar a clnica.
Piper passou por Kyle, cuidando para no esbarrar nele, uma tarefa no muito fcil, pois, aos sete meses de gravidez, j se sentia volumosa e desengonada.
	A recepo  l embaixo no hall,  direita, e h dois consultrios  esquerda.
	A clnica parece diferente do que me recordo.  Piper abriu a porta de um dos consultrios e espiou atentamente a cadeira, a mesa de ao inoxidvel para exames e uma prateleira com vrios instrumentos.
Ao sair da sala, chocou-se com Kyle.
	Desculpe-me!
Um calafrio percorreu-lhe os nervos quando os braos de Kyle instintivamente a envolveram, apesar de estar claro que aquilo era um simples gesto de proteo.
	No tem problema  disse ele, soltando-a rapidamente.  A sala de recepo e a mesa so aqui.
	Quando a recepcionista foi embora?  indagou Piper, enquanto o seguia.
	Um ms atrs. Deixou uma mensagem na secretria eletrnica, dizendo que estava deixando a cidade.  Ele deu de ombros.
	Voc no estava exagerando quando disse que podia se esconder atrs da papelada  comentou Piper, apontando para a pilha desordenada de cartas, fichas e pastas de arquivo sobre a mesa.
	Voc tem razo. Tentei no deixar acumular, paguei algumas contas, mas no fui muito longe, por causa das interrupes. No tive tempo de voltar a cuidar disso.
	Seria melhor que eu comeasse logo, ento  disse Piper, pegando um punhado de correspondncia fechada.
	Obrigado, estou realmente precisando organizar as coisas por aqui. Vou ficar muito agradecido.
	Sem problemas  assegurou Piper, tocada pela sinceridade que podia detectar no tom de voz dele.
	Fique atenta s suas horas de trabalho  avisou ele.  E inclua seu nome na folha de pagamento.
Piper chegou a abrir a boca para dizer-lhe que no queria e nem ao menos precisava do dinheiro, mas fechou-a novamente quando viu o brilho de determinao nas profundezas dos olhos de Kyle.
	timo  concordou ela.
	Papai!
O sbito grito assustou Piper, que se virou e viu uma menina de cabelos dourados, vestida com uma cala vermelha brilhante e uma camisa branca. Ela vinha correndo na direo deles com os dois cachorros seguindo-a.
Kyle curvou-se para acolher a filha nos braos, e Piper sentiu o corao dar outro salto no peito quando observou o olhar de adorao e amor que transparecia no belo rosto dele.
	Ol, querida... o que voc est fazendo aqui embaixo? Onde est Nana?
	L em cima, falando no telefone  respondeu a menina com um gracejo.  Quem  ela?
A garota girou nos braos do pai e apontou para Piper que, mais uma vez, estava tentando defender-se dos dois ces.
	No  educado apontar  Kyle censurou a filha, segurando-lhe a mozinha. O nome desta moa  Piper.
	E um nome engraado.
Piper riu suavemente, encantada com a criana sorridente com carinha de anjo.
	E voc? Como se chama?
	Meu nome  April Franshish.
	Francis  corrigiu Kyle, rindo.
	Franshish  repetiu ela, compenetrada.
Piper riu tambm.
	Que nome lindo, April Francis...  exclamou.

	E este  Mutt  disse April, apontando para o Doberman.  E ele  Jeff.
	Ns j nos conhecemos. Ol, Mutt. Al, Jeff.  Piper coou a orelha de Mutt, enquanto Jeff se sentou aos ps dela, abanando a cauda freneticamente.
	Voc vai ter um beb?  perguntou April, olhando para a barriga de Piper e novamente para o rosto dela.
Kyle virou-se para Piper, com as sobrancelhas erguidas e uma expresso surpresa e divertida no rosto.
Piper riu de novo e acariciou o ventre protuberante.
	Sim, eu vou ter um beb.
	Kyle! Oh, Kyle...
Todos se voltaram para a recm-chegada, uma mulher na faixa dos sessenta anos. Piper reconheceu-a imediatamente. Era Vera, a tia de Kyle, e parecia ansiosa e preocupada.
	O que aconteceu?  perguntou Kyle, colocando April no cho.
Vera hesitou, o olhar deslocando-se entre Kyle e Piper.
	Mary Bellows acabou de telefonar do escritrio de Frank.
	E?  perguntou Kyle, assustado.
	Mary acha que ele teve um ataque cardaco. A ambulncia est l agora e vai lev-lo para o hospital.  Ela levou as duas mos ao rosto e Piper viu lgrimas nos olhos da mulher.
Kyle conduziu a tia para uma cadeira prxima. Frank era, obviamente, algum especial para Vera.
	Voc quer que eu a leve de carro at o hospital?  ofereceu ele.
	Voc poderia?  O alvio estampou-se na fisionomia da mulher.
	 claro.
	Posso ir tambm?  perguntou April.
Kyle voltou-se para a filha.
	No acho uma boa ideia, queridinha. Ser melhor voc ficar aqui.
O olhar de Kyle transferiu-se para Piper, que permanecera parada ao lado da mesa da recepo, sensibilizada pela preocupao de Kyle com a tia.
	Piper est aqui. Ela tomar conta de voc at eu voltar. Poderia me dar essa ajuda, Piper?
	Bem... sim. Eu...  Piper no conseguiu terminar a frase, porque uma ambulncia passou na porta da clnica com as luzes piscando e a sirene ligada.
Kyle voltou-se para Vera.
	Pegue suas coisas. Eu a encontro l fora, na caminhonete.
Vera levantou-se da cadeira e saiu correndo da sala.
	No posso ir com voc?  perguntou April ao pai, outra vez.
Kyle levantou a filha nos braos.
	Estarei de volta antes que voc tenha tempo de sentir saudade, certo? Voc fica com Piper e lhe mostra a clnica, combinado? E no esquea que est na hora de dar rao aos cachorros.
	Certo  concordou April, ainda um pouco relutante.
	Minha garota boazinha!  Ele beijou a testa da filha antes de coloc-la no cho. Ento deu uma olhada no relgio e virou-se para Piper:  Tenho algumas consultas marcadas para esta manh naquela agenda azul. No devo demorar mais do que meia hora, mas seria bom se voc conseguisse avisar os clientes que vou me atrasar um pouco. E... obrigado, Piper, eu realmente lhe fico muito grato por isso.
	Estou pronta  falou Vera, aparecendo na porta.
Com um sorriso reconfortante, Kyle despenteou os cabelos de April com a mo e ento se juntou  tia.
Piper tentou afugentar a apreenso. Nunca tomara conta de uma criana daquele tamanho. E se algo acontecesse?
De repente, Piper sentiu uma mozinha pegando a sua e olhou para baixo, para se deparar com April fitando-a fixamente.
	Tio Frank vai ficar bom?  perguntou a menina com a voz levemente embargada.
Piper esboou um sorriso.
	A ambulncia o est levando para o hospital, onde os mdicos tomaro conta dele  disse, parecendo mais confiante do que se sentia.
April franziu a testa.
	Eu j estive no hospital uma vez.
	Verdade?  perguntou Piper, achando a conversa no s interessante, como tambm descontrada. April no parecia estar preocupada em ter sido deixada com uma estranha, e o fato de que a criana tinha confiana nela, de algum modo, dispersou a ansiedade que sentira no incio.
	Papai me contou. Disse que eu nasci antes do tempo e tive que ficar uns dias na incubadora, at que eu cresci um pouco, ento ele me trouxe para casa  explicou ela, solenemente.
Piper sorriu.
	Bem, eu diria que eles cuidaram muito bem de voc, no hospital.
April meneou a cabea.
	E vo tomar conta do tio Frank, tambm.
Era fcil perceber que April era uma criana bem-compor-tada e equilibrada, e Piper admirou o desempenho de Kyle como pai.
Se Kyle Masters conseguira se sair to bem cuidando de uma criana, ento nem toda esperana estava perdida para ela.
CAPITULO II

Meia hora depois, Piper deu uma olhada em April, que estava deitada no cho, entretida com um livro infantil. Conforme o pai lhe pedira, ela alimentara os cachorros e os colocara no canil.
Enquanto observava April folhear as pginas do livro, Piper pensava o quanto seria difcil para a menina viver sem a me.
Ela tinha tentado adiar a primeira consulta, mas ningum atendera na casa da cliente. Ento, antes da hora marcada, Martha Cummings e seu gato, Gypsy, chegaram para a consulta. Piper explicou o que havia acontecido e convidou a mulher a se sentar.
	Acho que vi a caminhonete de Kyle estacionar  disse Martha Cummings pouco depois, interrompendo os pensamentos de Piper.
Desde que chegara na clnica, dez minutos antes das nove, Martha vinha dirigindo olhares desaprovadores para Piper.
Quando Kyle entrou, ela sentiu uma mistura de alvio e alegria ao v-lo. Ele exibia um sorriso educado, mas ela podia perceber as linhas de preocupao nos cantos de seus lbios.
	Papai, voc voltou!  April deu um pulo e correu para o pai. ; O tio Frank est bem?
	Ol, doura! Eu no sei ainda como tio Frank est, mas tenho certeza de que a Nana vai telefonar para nos avisar. Voc se comportou?
April assentiu.
	Quando a Nana vai voltar?
	Eu disse a ela que ns iramos peg-la mais tarde. Agora preciso cuidar daqueles bichinhos, est bem?
Kyle voltou-se para o pequeno grupo de pessoas sentadas com seus animais de estimao.
	Sinto muito faz-los esperar. Se vocs me derem alguns minutos, podemos comear.
Ele dirigiu-se para onde Piper estava, sentada  mesa. Ela entregou-lhe uma ficha de arquivo.
	A sra. Curnmings e Gypsy so os primeiros.
	Obrigado. Como April se portou? Sem problemas, espero.
	Um amor de criana  elogiou Piper com sinceridade.
	Eu vejo que voc j conseguiu achar um jeito prprio de lidar com o sistema de arquivos  comentou ele. O sorriso desta vez transpareceu nos olhos de Kyle, e Piper sentiu o corao acelerar.
	Estou tentando organizar  respondeu ela. Pelos papis que encontrara espalhados sobre a mesa, percebera que teria de achar uma forma de reorganizar as coisas de maneira que ficassem claras para qualquer pessoa que viesse a ser responsvel pelo trabalho em um futuro prximo.
	Obrigado  disse ele antes de voltar a ateno para sua cliente.  Sra. Cummings, por favor, traga Gypsy para a sala de exames nmero um.
	Papai, posso ir com voc?  April perguntou.
	Pode  respondeu Kyle.
Durante a hora seguinte, Kyle, com ajuda da filha, cuidou dos animais levados pelos donos.
Aliviada da responsabilidade de vigiar April, Piper voltou a concentrar-se na tarefa de classificar a correspondncia e organizar os arquivos.
O sistema de organizao que Kyle usava era um tanto obsoleto e no contava com a ajuda de um computador, nem mesmo para controlar o faturamento ou ter uma lista atualizada dos clientes e seus respectivos animais. Pelo que ela pde perceber, depois de um rpido manuseio nos arquivos, a recepcionista anterior desenvolvera um sistema prprio, e no era de admirar que Kyle estivesse perdido em meio quela desorganizao.
Buscando os registros financeiros, Piper descobriu que o processo era feito por meio de um livro de contabilidade. Uma busca nas gavetas da mesa mostrou que o movimento dirio de dinheiro era uma caixa de metal com muitos anos de uso e a chave amarrada nela prpria.
Cada vez que Kyle saa de uma das salas de exame, colocava a ficha do paciente atendido dentro de uma cesta de arame na mesa de Piper. Anexada com um clipe, estava uma folha de papel com o motivo da consulta e os custos.
	Certo, sra. Baxter  disse Kyle, enquanto acompanhava uma senhora de meia-idade, carregando uma gaiola com um gato at a porta.  D a Whiskers uma plula junto com a comida pelos prximos cinco dias. Isso deve resolver o problema. Traga-o de volta na prxima semana e eu o examinarei novamente.
	Obrigada, dr. Masters. Quanto lhe devo?  perguntou a sra. Baxter.
Kyle meneou a cabea, sorrindo.
	Nada.
	Obrigada...  muita gentileza sua.
Do ponto estratgico onde se encontrava, atrs de sua mesa, Piper observava a cena, percebendo o alvio transparecer no rosto de Marion Baxter. Ela lembrou-se da famlia Baxter. O filho, Rick, estudara na mesma escola que ela. Era o mais velho de seis irmos, e Piper lembrava de ter ouvido alguns dos garotos na escola comentando que o pai de Rick gostava de beber e que frequentemente gastava todo o ordenado em bebida, antes mesmo que a mulher tivesse chance de comprar comida para a famlia.
	Papai, estou com fome!  anunciou April quando a porta fechou atrs da sra. Baxter.
	Eu tambm  replicou ele, consultando o relgio.   quase hora do almoo. O que vamos comer?
	Cachorro-quente.
Piper ouviu o suspiro de Kyle e reprimiu um sorriso. O relacionamento dele com a filha era to harmonioso, to natural e amoroso que ela invejava a maneira descontrada como a situao se desenrolava.
	Tudo bem, cachorro-quente, contanto que voc prometa beber todo o leite.
	Eu prometo.  April correu para Piper.  Voc quer comer cachorro-quente conosco?
Piper planejara caminhar at a rua principal e comer alguma coisa antes de voltar para casa.
	Se voc no quiser cachorro-quente, posso preparar um sanduche de queijo com tomate.  O comentrio de Kyle fez com que ela voltasse o olhar para ele. Os olhos cinzentos pareciam faiscar e o corao de Piper disparou.  Seria meu jeito de lhe dizer obrigado.
Piper sentiu o rosto queimar.
	Estou contente por ter conseguido ajudar.
	Ento, o que me diz? Cachorro-quente ou sanduche?  insistiu ele, com um tom de desafio na voz.
	Sanduche, por favor.
O sorriso dele aflorou de novo e, desta vez, o corao de Piper bateu mais forte ainda.
	Bom! Eu trancarei a clnica, e ns podemos ir l para cima.
April saiu correndo. Piper subiu a escada, curiosa. No imaginava como seria o?andar superior, mas surpreendeu-se ao descobrir que a rea residencial era espaosa e muito bem decorada, com grandes janelas ocupando toda a extenso.
	Que apartamento lindo!  comentou ela.
	Obrigado. Ns gostamos dele  respondeu Kyle.  April, no se esquea de lavar as mos. Fique  vontade, Piper. Eu avisarei quando o almoo estiver pronto  disse ele, antes de seguir April atravs do corredor.
Piper deu uma olhada pela sala, notando os antigos, porm bem cuidados sof e poltrona, duas mesas de carvalho de cada lado do sof e uma pequena, mas adequada, mesa de centro.
O assoalho estava brilhante e sem um gro de poeira. A sala era quente e aconchegante, com somente alguns brinquedos espalhados em volta, uma indicao de que o espao da criana era respeitado.
Em cima da televiso, no canto da sala, Piper notou uma sequncia de fotografias, todas de April, tiradas em vrios estgios de sua vida, desde beb at uma mais recente, sentada no gramado com Mutt e Jeff.
Piper estudou aquela fotografia mais de perto, concluindo, pela m qualidade da luz e pela colorao desbotada, que se tratava de uma foto instantnea ampliada. Quem quer que a tivesse revelado no fizera um bom trabalho. Mas de qualquer modo, o fotgrafo tinha captado a essncia da criana loura de olhos azuis, cujo sorriso era uma rplica do sorriso do pai.
Havia muito tempo desde que fizera servio de revelao, mas Piper estava certa de que, se tivesse acesso ao negativo, poderia produzir uma foto de melhor qualidade.
O nico problema era que no tinha o equipamento consigo. Havia empacotado tudo, inclusive a cmera em um cesto apropriado para ser transportado para sua casa. Ela reps a foto no lugar e foi at a janela. A propriedade se estendia at muito longe, terminando com um gramado ngreme em uma vala.
 esquerda, havia uma pequena horta, e prxima  casa, uma rea cercada com uma sequncia de canis e tambm uma casinha de cachorro. De onde estava, Piper podia ver Mutt e Jeff deitados  sombra de uma amoreira, perto do jardim.
	Quer ver meu quarto?  perguntou April quando entrou correndo na sala e juntou-se a ela.
	Claro, eu adoraria!  incentivou Piper.  Mas antes voc poderia me mostrar onde fica o banheiro?
	Est bem!
Poucos minutos depois, quando Piper saiu do banheiro, ouviu a voz de Kyle falando com a filha. Ento seguiu o som das vozes e os encontrou na cozinha, uma rea pequena, mas moderna, com armrios brancos, uma bancada de mrmore azul escuro e paredes da cor do sol.
Uma pequena mesa de pinho, j posta para trs pessoas, com quatro cadeiras, ficava em um canto perto da janela, que dava para a rua. Kyle levantou o olhar da bancada e sorriu.
	O almoo est quase pronto.
	Posso ajudar em algo?  perguntou Piper, tentando ignorar a pulsao acelerada.
		Voc pode colocar isso na mesa para mim e eu levarei o cachorro-quente de April.
Ele entregou a Piper dois pratos.
April j ocupara seu lugar  mesa. Piper sentou-se a seu lado e Kyle juntou-se a elas, pondo o cachorro quente e um bolo de passas na frente da filha.
Piper mordeu o sanduche e se surpreendeu ao descobrir que estava faminta. Kyle tinha razo. O sanduche estava delicioso. Ele tinha acrescentado alface crocante, fatias de cebola doce e um leve toque de mostarda.
Duas semanas antes, ela jamais poderia supor que almoaria com Kyle Masters, o homem pelo qual tivera uma forte atrao oito anos atrs. O homem que a rejeitara to completa e friamente.
Ele a humilhara de propsito, dizendo-lhe que no se envolvia com virgens de dezoito anos que pensavam que sexo era um jogo. Com poucas palavras escolhidas e muitas frases cortantes, ele a desprezara.
Piper simplesmente havia acreditado que morenas de olhos azuis no eram o tipo dele. Louras exuberantes como Elise eram as que mexiam com seu corao.
Mas de acordo com Sj>encer, Elise havia partido logo aps o nascimento de April. Ser que ele ainda sentia saudade dela?, perguntou-se Piper.
Kyle de repente levantou o olhar e a surpreendeu distrada, observando-o. Por um momento crucial, seus olhares se cruzaram e ela sentiu a respirao estancar-se na garganta, enquanto os tempestuosos olhos cinzentos tornavam-na prisioneira de seu encanto.
	Papai, posso pr um pouco de catchup?  perguntou April, quebrando a magia do momento.
	Claro...
Kyle levantou-se e abriu o armrio.
Piper tentou fazer a respirao fluir normalmente e deu outra mordida no sanduche. Seus pensamentos voltaram para aquele vero quando ela, pela primeira vez, notara a incrvel beleza mscula de Kyle Masters. Tinha dezesseis anos quando ela e algumas amigas estavam em uma lanchonete e Kyle passou carregando uma pilha de livros. Uma das meninas a empurrou e ela acidentalmente colidiu com ele. Os livros caram no cho e a prpria Piper teria cado se no fosse o rpido reflexo de Kyle, que a amparou e a apertou contra si, fazendo-a perder o flego. Envergonhada, ela comeou a desculpar-se, mas as palavras morreram em sua garganta quando se viu olhando para o homem mais espetacular que j vira na vida. Seu corao batia com tanta fora que ela tinha certeza de que o homem podia ouvir, mas quando vislumbrou um brilho zombeteiro naqueles profundos olhos cinza-prateados, se sentiu mortificada por dentro.
Piper estremeceu com a lembrana.
	Voc quer que eu...  comeou Kyle para a filha quando voltou para a mesa com o vidro de catchup.
	Eu posso fazer isso sozinha  adiantou-se April, apanhando o vidro.
Kyle deu a ela o vidro e quando ia sentar-se novamente, o telefone tocou. Ele o atendeu de imediato, pegando o aparelho de cima da bancada.
	Clnica Veterinria Kincade, Kyle Masters falando.  Ento ouviu por um momento.  Sim, no h problema, irei imediatamente. Faa-o andar por a at -que eu chegue. No o deixe dormir.  Franzindo a testa, ele desligou o telefone.
	Alguma coisa errada?  perguntou Piper.
	Infelizmente vou ter que sair  avisou ele.  Um cavalo doente, suspeita de clica.
	No na fazenda...?  ameaou perguntar Piper, sabendo quo perigosa poderia ser uma clica em cavalos.
Kyle balanou a cabea.
	No, era Shannon, do Estbulo Riding. Ela hospeda alguns cavalos, e um dos recm-chegados est mostrando tpicos sinais de estresse abdominal.
	Entendo. O Estbulo Riding  aquele que fica a leste da cidade, no, a uns vinte e poucos quilmetros daqui?
	Sim, esse mesmo. Oua, eu sei que  pedir muito  comeou Kyle.  Ser que voc no se importaria...
	De ficar com April?  Piper concluiu a frase por ele.
	Vai atrapalhar seus planos? Voc tem algum compromisso?
	Bem... no, no tenho outros planos  disse ela, hesitante.  Quando voc vai voltar?  perguntou, no querendo demonstrar ansiedade.
	Uma hora, talvez duas  respondeu ele.  Eu sei que o trabalho de recepcionista aqui na clnica no inclui servios de bab, mas com Vera no hospital, estou realmente perdido.
	Eu entendo  Piper o tranquilizou.  No se preocupe, eu posso ficar com April.
Os lbios de Kyle se curvaram instantaneamente em um sorriso que aqueceu o corpo de Piper.
	Obrigado!  Ele parecia aliviado.  Estarei de volta o mais rpido possvel.
Piper olhou para a menina, que estava ocupada em espalhar catchup em cada centmetro de seu cachorro-quente.
Kyle apanhou as chaves e o celular do balco e pegou a jaqueta jeans.
	Vou buscar o material l embaixo  informou ele.  Eu no posso lhe dizer o quanto estou agradecido por sua ajuda.  Ele voltou-se para April.  Queridinha, o papai tem que sair e ver um cabalo doente. Piper vai ficar aqui com voc at que eu volte, certo?
	Tudo bem  replicou April, imperturbvel pela notcia, sem dvida j acostumada com o fato de o pai ser chamado a todo instante.
	Se voc precisar de mim, o nmero do meu celular est anotado em um papel na porta da geladeira  avisou ele.  Eu ligarei se perceber que vou me demorar mais que duas horas.
	timo!  disse Piper.
	April algumas vezes precisa de uma soneca  tarde. Ponha-a na cama se voc achar que ela est rabugenta.
	Certo. Uma soneca se ela ficar rabugenta.  Piper piscou para April.
	O que voc e a Nana fazem quando seu pai no est aqui?  perguntou Piper alguns minutos mais tarde, enquanto tirava os pratos da mesa.
	Algumas vezes ns vamos ao parque, e outras ela l uma histria para mim  esclareceu April.  Voc poderia ler uma histria para mim?
	Claro!  disse Piper, gostando imensamente da ideia.
April riu.
	Os livros esto no meu quarto. Eu vou buscar um  avisou ela, escorregando para fora da cadeira.
	Oh... Espere um minuto  disse Piper, percebendo que as mos e o rosto de April estavam sujos de catchup.  Acho que seria melhor limpar esse catchup primeiro. 
April fazia caretas e esquivava-se enquanto Piper tentava limpar todas as manchas do rosto da menina.
	Voc  uma garotinha de muita sorte por ter algum para contar histrias e tomar conta de voc.  Piper puxava assunto para distrair a criana enquanto lavava as mozinhas pegajosas.
	Nana  boazinha comigo, mas eu preferiria ter uma mame verdadeira.  O tom de April era melanclico.
O corao de Piper se compadeceu pela criana.
	Talvez um dia voc tenha uma nova mame  disse ela, tentando aliviar a menina de sua dor.
	Nana acha que papai poderia encontrar facilmente outra mame para mim, mas disse que ele nem ao menos procura por uma!  contou April com ingenuidade.
Piper teve de se esforar para no sorrir.
	Eu no acho que seja to fcil assim  comentou, perguntando-se se Kyle estaria ciente do desejo secreto da filha.
CAPTULO III

Kyle subiu vagarosamente a escada para o apartamento.
Passara as ltimas duas horas no Estbulo Riding, tratando do cavalo doente.
Depois de diagnosticar clicas no animal, administrara uma mistura de gua e leo e tambm um analgsico. Esperara algum tempo para acompanhar o efeito e agora, depois do dia estressante, sentia-se exausto.
Esperou ouvir vozes no interior da casa, mas tudo estava quieto. Talvez April tivesse convencido Piper a lev-la para passear no parque e brincar nos balanos.
Abrindo a porta, ele assustou-se quando viu que Piper e April estavam adormecidas no sof. Piper tinha um brao em volta de sua filha, que repousava a cabea sobre suas pernas.
Um dos livros de histrias favoritos de April jazia aberto no cho. Havia outros espalhados sobre a mesinha de centro.
Kyle contemplou as duas figuras adormecidas e, por um breve momento, alimentou a tola fantasia de que aquela era a sua famlia. A filha e a esposa grvida.
Sempre sonhara com uma cena igual quela... Chegar em casa para os braos de uma esposa adorvel e uma casa cheia de crianas. Quando se casara com Elise, Kyle esperava ter uma famlia perfeita e uma vida feliz.
O primeiro ano de casamento fora difcil, e quando Elise ficara grvida o relacionamento comeara a piorar progressivamente. Elise no ficara nada emocionada com a ideia de comear uma famlia, e fora assim que Kyle percebera que ela ainda sonhava com uma carreira artstica.
Poucos dias depois da chegada prematura de April, Elise deixara o hospital por conta prpria e pegara o primeiro nibus para fora da cidade.
A fuga de sua ex-esposa realmente no o havia surpreendido. O que ele no conseguia entender, muito menos perdoar, era o fato de ela nunca ter perguntado se o beb estava bem, ou ter feito questo ao menos de olhar para a criana que trouxera ao mundo.
Um ano depois, o advogado de Kyle a contatara em Nova York, onde trabalhava em uma produo na Broadway. Ela assinara o divrcio que dava a Kyle a custdia integral da filha. Ele apenas lamentara o fato de que April cresceria sem irmos.
Ele prprio tinha sido uma criana solitria. Seus pais morreram em um desastre de trem quando tinha apenas seis anos. Poucos meses depois, embarcaram-no para Kincade para viver com a tia viva.
Naquela ocasio, Vera Masters trabalhava na administrao do Hospital Beneficente de Kincade. A princpio, no ficara muito satisfeita com a chegada de uma criana a sua casa, mas sua atitude mudara quando o relacionamento com o sobrinho se aprofundara e se fortalecera.
A casa da tia de Kyle ficava em frente  de Henry Bishop, o veterinrio local. Henry tornara-se um amigo para ele, e a figura de um pai. Sua bondade e incentivo ajudaram Kyle durante os tempos difceis. Henry lhe mostrara as recompensas de trabalhar com animais e fora assim que nascera o sonho de se tornar veterinrio. Depois que Elise fora embora, Kyle tinha se determinado a cuidar de tudo por conta prpria, mas reconhecia que nunca teria conseguido isso sem a ajuda de Vera.
O fato de a tia morar na mesma rua tornara as coisas mais fceis. Mas durante o ano anterior, Vera comeara a dedicar cada vez mais tempo a Frank Yardly, um advogado vivo que se mudara para Kincade com inteno de se aposentar.
Kyle tinha o pressentimento de que Frank alimentava tambm esperana de casar-se outra vez, porm Vera nunca tocara no assunto e Kyle, embora com um leve peso na conscincia, tambm o evitava, sabendo que dependia muito Ja tia.
Na volta para casa, ele passara no hospital para ver Frank e sentira-se aliviado quando Vera, ainda com sinais de choro no rosto, lhe contara que Frank estava fora de perigo e se recuperaria, embora este processo fosse demorado.
Kyle percebera que Vera gostaria de passar mais tempo com Frank e ajud-lo na sua recuperao, e no podia culp-la por isso. Mas se no pudesse contar com Vera para tomar conta de April, teria de contratar uma bab, o que significava uma despesa com a qual ele no poderia arcar no momento.
Alm do mais, o que April realmente precisava era de uma me, algum para passar o tempo com ela, brincar, uma pessoa amorosa e interessada, que a disciplinasse com uma mo carinhosa, porm firme.
Seu olhar percorreu por um momento a barriga arredondada de Piper. Havia algo incrivelmente sensual em uma mulher grvida. Bem, na verdade, naquela mulher grvida, refletiu.
No pela primeira vez, Kyle se perguntou o que teria acontecido oito anos atrs, se tivesse aceitado o que ela to ansiosamente lhe oferecera.
Fora necessrio ter uma imensa fora de vontade para rejeitar aquela jovem bela e desejvel. Piper, provavelmente, acharia graa se soubesse que, logo depois, ele havia se atormentado com a louca fantasia de fazer amor apaixonadamente com ela.
Mas Kyle sabia naquela poca, tanto quanto agora, que Piper Diamond era uma mulher como nenhuma outra que ele j conhecera, uma mulher forte, determinada e com um esprito livre. Uma mulher que ele duvidava que um dia pudesse consider-lo um companheiro adequado para toda a vida.
Kyle suspirou e jogou o jaleco sobre uma cadeira, porm ele escorregou para o cho, caindo sobre o livro de April.
O rudo foi quase imperceptvel, porm Piper abriu os olhos. Por um momento, no se recordou de onde estava. Mas ao levantar o rosto e ver Kyle a sua frente os acontecimentos daquele dia voltaram rapidamente  memria.
	Oh... ol  balbuciou, com voz sonolenta.  Desculpe, eu peguei no sono junto com April...
	E o que estou vendo  disse ele, sorridente.
	Papai!  April sentou-se, esfregando os olhos.
	Ol, dorminhoca!
Piper afastou os cabelos para detrs das orelhas e recostou-se outra vez, numa posio mais confortvel.
	A gravidez me faz sentir sono  tarde  explicou.  Que horas so?
	Quase trs  informou Kyle.
	 melhor eu ir para casa  disse ela, tentando erguer-se.
	Deixe-me ajud-la.
Piper hesitou por um instante, depois aceitou a mo que ele lhe estendia.
	Obrigada.
A presso da mo de Kyle era forte e firme, e enquanto ele a ajudava a levantar-se ela sentiu o perfume masculino, que nem mesmo o trato com os animais conseguia extinguir.
Repentinamente a vontade de encostar nele, de sentir a fora daqueles braos a sua volta, a invadiu. Piper se inclinou e quando sua barriga roou de leve nele, um leve tremor a percorreu.
	Vamos pegar Nana no hospital agora?  perguntou April.
Antes, porm, que Kyle respondesse, Piper levou uma mo  barriga com um gemido baixo e uma careta de dor.
	O que foi, Piper?  perguntou April, percebendo o gesto.  Voc est com dor de barriga?
Piper sorriu.
	No... O beb me chutou, essa  a verdade  explicou ela.
April arregalou os olhos.
	Ele se mexe dentro da sua barriga?
	Sim.
	Posso pr a mo para sentir?  pediu a menina, os olhos azuis brilhando de interesse.
	Claro  respondeu Piper ao mesmo tempo que olhava para Kyle, como se temesse que ele, por alguma razo, no consentisse.
Mas Kyle sorria para a filha, encantado e orgulhoso. Piper segurou a mo de April e pousou-a sobre seu ventre arredondado.
April ficou imvel, os olhos muito abertos e atentos, e Piper e Kyle se entreolharam, com expresses sorridentes.
	Ele se mexeu!  exclamou April, arregalando ainda mais os olhos, eufrica.  Eu senti, papai!
Ela virou-se para Piper.
	Voc deixa meu pai sentir tambm?
Piper sentiu uma onda de calor subir ao rosto. Gostaria de dizer que no, mas como poderia recusar-se a fazer a vontade da menina, to encantada ao descobrir aquele pequeno mistrio da vida?
Olhou timidamente para Kyle e em seguida desviou o olhar.
	Se ele quiser...
Piper percebeu que Kyle tambm no se sentia  vontade para toc-la, mas, pelo mesmo motivo, cedeu  vontade da filha.
Repentinamente, a atmosfera  volta deles parecia carregada de eletricidade, enquanto Kyle espalmava gentilmente a mo na barriga de Piper.
	Voc sentiu, papai?  perguntou April, ansiosa.
Piper prendeu a respirao, rezando para que o beb se mexesse logo.
	No, ainda no  respondeu ele.  Espere... sim. Senti um pontap  anunciou em tom de surpresa, enquanto April dava pulinhos de alegria.
Mas nem mesmo a presena daquela criana e sua reao entusiasmada foram suficientes para dissipar a tenso reinante entre Piper e Kyle. Ele se demorou ainda algum tempo com a mo na barriga protuberante, deslizando-a com delicadeza para acompanhar os movimentos do beb.
Piper mantinha a respirao suspensa, enquanto sensaes avassaladoras a dominavam. Kyle no olhava para ela, sua ateno concentrada unicamente no ventre, a expresso quase emocionada. Ela observou-lhe o perfil msculo e por um breve momento fechou os olhos, incerta se queria que aquilo acabasse logo ou que durasse para sempre.
	Voc me sentiu mexer quando eu estava dentro da barriga da minha me?
A pergunta inocente de April finalmente desfez a magia do momento, e Kyle retirou a mo, endireitando os ombros e respirando fundo, antes de responder:
	 claro que senti, amorzinho  assegurou ele.
Embora ele quisesse mostrar naturalidade, Piper detectou uma sombra nos olhos cinzentos.
	Agora, se vamos buscar a Nana,  melhor eu ir tomar um banho ou nos atrasaremos.
	E eu preciso ir para casa  acrescentou Piper, j caminhando para a porta.  Espero que o amigo de sua tia melhore logo.
	Obrigado... e obrigado mais uma vez por tomar conta de April.
	No precisa me agradecer, foi um prazer para mim  afirmou Piper com sinceridade.  Ela  um encanto de criana.
	Voc vai voltar amanh?  April quis saber.
	Hum... sim.  Ela lanou um rpido olhar para Kyle, notando o alvio em sua expresso.   .
	Eu no sei o que teria feito hoje se voc no estivesse aqui  confessou Kyle, enquanto a acompanhava at a porta.
	April e eu nos divertimos muito  disse Piper.  Vejo vocs amanh  acrescentou e, com um aceno, partiu.
Nas duas semanas seguintes, Piper passou as manhs na clnica veterinria. Esperava ansiosamente cada dia, apreciando o trabalho e o contato dirio com Kyle, os clientes e os animaizinhos de estimao.
Que ele era um veterinrio popular e respeitado era bvio, e Piper admirava, cada dia mais, aquele homem que se dedicava ao trabalho com profissionalismo, amor e serenidade.
Algumas vezes ela ficava mais tempo na clnica, para que Vera pudesse ir visitar Frank no hospital. Cada hora que passava na companhia de April ajudava-a a sentir-se mais segura e confiante. Piper sabia que tinha sorte por April ter um temperamento to bom e ser uma criana calma e, continuamente, via-se admirando Kyle por conseguir criar to bem a filha sozinho. Naquela tarde, eram quase quatro horas quando Kyle retornara de uma fazenda, aonde fora chamado para atender um cavalo que tinha se ferido com arame farpado. Piper sempre procurava ir embora to logo Kyle voltasse, mas havia ocasies, como naquele dia, em que ela gostava de se demorar um pouco mais, s para observ-lo interagir com a filha.
	Ol, querida.  Nora Diamond estava sentada  mesa da cozinha, lendo uma revista, quando Piper entrou.  Pensei que voc fosse chegar mais cedo. Foi fazer compras?
	No. Kyle teve de sair para atender a um chamado e eu fiquei para tomar conta de April.
	 um amor aquela menina, no?  comentou a me de Piper.   uma pena que o casamento de Kyle no tenha durado, mas Elise no agiu corretamente com ele. Colocou o trabalho em primeiro lugar e deixou o marido e a filha. Vera ajudou muito, claro, mas todos sabem que ela e Frank j estariam casados se no .fosse sua lealdade a Kyle.
Nora deu um suspiro e continuou:
	Vera no se atreve a confessar, mas tenho certeza de que ela gostaria que Kyle se casasse novamente. Alm de ele precisar de uma companheira, aquela garotinha precisa de uma me.
Piper no fez nenhum comentrio. Limitava-se a ouvir a me, enquanto se servia de suco.
	Oh, antes que eu me esquea  acrescentou Nora , chegou uma carta para voc esta manh, registrada.  de uma firma de advocacia de Nova York.
Piper ficou tensa.
	Onde est?
	Seu pai a deixou na mesinha do hall.
	Eu acho que vou tomar um banho rpido antes do jantar  informou Piper.
	Faa isso, querida.
Piper pegou a carta no hall e subiu para o quarto. Fechou a porta e abriu o envelope ansiosa. Quando tomou conhecimento do contedo, recostou-se pensativa na cama.
A carta era para inform-la de que sua presena era solicitada em uma audincia preliminar em Nova York, dali a duas semanas.
Piper desejou no ser obrigada a ter contato com os pais de Wes. Ela havia lhes contado sobre a gravidez aps a morte de Wes, porque sentira que, como avs da criana, tinham o direito de saber.
Para sua surpresa, a reao deles fora exatamente a mesma de Wes. Logo quiseram saber se ela tinha certeza absoluta de que Wesley era o pai do beb.
Depois de dar aos Hunter a certeza que procuravam, a conversa terminara, mas no antes de a me de Wesley informar a Piper que ela seria contatada pelos advogados da famlia, no devido tempo.
Trs dias depois, quando estava arrumando as malas para viajar para a fazenda, recebera um telefonema em seu apartamento, informando-a de que os Hunter estavam planejando entrar na justia pela custdia do neto.
Eles alegavam que o trabalho de fotgrafa exigia que ela viajasse com frequncia e que, na ausncia do pai ou de um padrasto, o beb deveria ser criado pelos avs, que tinham mais estrutura para oferecer estabilidade  criana.
Indignada e tambm apavorada, Piper desligara o telefone, mas no sem antes deixar bem claro para o advogado do outro lado da linha que jamais abriria mo de seu filho.
Angustiada, procurara sua amiga Marilyn Cox, que era tambm sua advogada. Mas Marilyn, no familiarizada com as leis americanas de custdia de crianas, no fora de muita ajuda. Tinha, contudo, dado uma sugesto que inicialmente fizera Piper rir. Mas a amiga lhe garantira que no estava brincando, assegurando a Piper que uma das maneiras mais seguras de bloquear a ao judicial seria casar-se.
Marilyn sugerira que ela arranjasse um casamento de convenincia, apenas no nome, o que seria um meio efetivo para aumentar as chances de cancelar o processo dos Hunter.
Piper descartara a ideia, alegando que seria humilhante demais ter que se casar apenas para ter direito ao prprio filho. E, alm disso, no acreditava que os Hunter levassem o processo adiante. Agora, no entanto, ao receber aquela carta oficial, percebia que se enganara. Os advogados at mesmo haviam conseguido localiz-la na Califrnia, o que indicava que os Hunter estavam determinados a prosseguir com a ao.
Piper atirou a carta na cama, transtornada. O que devia fazer? Embora o pensamento de dar  luz e educar uma criana sozinha a tivesse amedrontado demais, aquilo tinha, de alguma maneira, mudado, graas ao tempo que passara com April. Mas nunca, nem mesmo durante os momentos mais sombrios, pensara em desistir do beb.
O que aconteceria se os pais de Wes ganhassem a causa? No! Ela no queria nem pensar nessa possibilidade.
E a ideia de Marilyn, sobre um casamento de convenincia? Tudo o que precisava era de uma certido de casamento, nada mais. Mas quem concordaria com isso s para ajud-la?
Tendo morado longe de Kincade nos ltimos oito anos, no tinha nenhum amigo,,nem conhecia algum com quem tivesse intimidade suficiente para pedir um favor como aquele.
E... No... S se... E Kyle? Sua me tinha acabado de comentar que, se ele casasse, a tia estaria livre para viver a prpria vida. Pelo que observara durante as duas ltimas semanas, Kyle Mas-ters era exatamente o tipo de homem que ela precisava a seu lado, a fim de convencer os Hunter a abandonar o processo.
Ele era compassivo e cuidadoso, tinha uma situao estvel e independente. Era um exemplo de chefe de famlia. Ao contrrio de Wesley, ele no rejeitara a ideia de se tornar pai, e assumira sozinho a responsabilidade de criar a filha.
April era uma criana bem-ajustada e feliz, uma prova do amor e da dedicao de Kyle. Alm do que, no fora a prpria April que lhe dissera que queria ter uma me?
Seria a soluo perfeita. Tudo que precisava fazer era convencer Kyle. Por outro lado, Piper sabia que esta no seria uma tarefa fcil. Fazer Kyle concordar com um casamento de convenincia seria o maior desafio de sua vida.
No fundo de sua mente, permanecia a dolorosa lembrana da rejeio dele, naquele vero, oito anos atrs. Fora tola e ingnua em ter se aproximado dele e lhe pedido que fizesse amor com ela. O fato de que fora movida por um senso de desafio no era desculpa.
Piper tivera sorte por ele ser um homem de carter e moral, caso contrrio poderia ter vindo a lamentar a vida inteira por sua atitude impensada.
Durante as duas ltimas semanas, convivera com ele intimamente e, analisando-o, passara a v-lo de uma forma com-pletamente nova. Eles haviam consolidado uma amizade temporria, e Piper tinha quase certeza de que ele pelo menos a ouviria at o fim.
Alm do mais, situaes desesperadas exigiam medidas desesperadas, e Piper estava determinada a fazer qualquer coisa para impedir que lhe tirassem seu beb.

CAPTULO IV

	Papai! Papai... Ns pensvamos que voc nunca mais fosse voltar!  exclamou April, correndo na direo de Kyle.
	Oi, doura.  Kyle envolveu calorosamente a filha nos braos.
	O que voc estava fazendo na cozinha? O que quer que seja, est com um cheiro maravilhoso.
	Piper e eu fizemos espaguete  confidenciou April.  Ns fervemos o macarro e fizemos o molho. Eu coloquei a massa na gua e mexi o molho!  anunciou, orgulhosa.
	Que bom. Eu estou morrendo de fome  disse Kyle, esfregando as mos em antecipao.
April riu e saltitou na frente do pai.
Da cozinha, Piper ouviu o som das risadas e sentiu um calafrio subir pela espinha. Quando ouvira a porta do apartamento fechar, sentira vontade de seguir April, mas contivera o impulso.
Enquanto esperava que eles aparecessem, Piper sentiu o corao acelerar. No pela primeira vez naquela tarde, pensou sobre a proposta que queria fazer a Kyle. Qual seria a reao dele?, perguntou-se.
	Isto est se tornando um hbito  disse Kyle, enquanto entrava na cozinha atrs de April.
Aquela era a terceira vez, em trs dias seguidos, que ele chegava em casa e encontrava Piper l. Ela havia se oferecido para ficar e deixar Vera livre para ir ao hospital, mas como a outra at ento no aparecera, ela decidira preparar uma refeio enquanto esperava.
	Parece que sim  concordou Piper, conservando o tom de voz calmo.
Kyle parecia cansado. Os cabelos estavam desalinhados, caindo sobre a testa, o que o fazia parecer jovial e vulnervel.
	April me contou que vocs duas andaram preparando coisas gostosas na cozinha.
Ele se dirigiu ao fogo, levantou a tampa da panela e inspirou profundamente.
	Humm... bastante organo e alho... do jeito que eu gosto. 	Ele sorriu para Piper.
Ela apenas assentiu com um movimento de cabea. O sorriso de Kyle, como sempre, fazia seu corao disparar.
Enquanto preparava o jantar com a ajuda de April, ela descobrira-se pensando que todos os dias seriam assim se Kyle concordasse com sua proposta. Para sua surpresa, a ideia lhe agradava mais do que ela gostaria de admitir.
	Espero que voc fique para comer conosco  acrescentou Kyle.
	Eu gostaria muito, obrigada  respondeu ela, sentindo o rosto queimar, sabendo que o momento de falar com ele estava prximo.
	Acho melhor eu tomar um banho primeiro  disse Kyle.
	Apresse-se, papai  falou April.
Piper seguiu Kyle com o olhar, nervosa, tentando decidir a melhor maneira de abordar o assunto. Ela contara a seus pais que os pais de Wes estavam lutando pela custdia do beb e que consultara a amiga advogada, que sugerira que ela tomasse algumas medidas para bloquear o processo de custdia, mas no entrara em detalhes sobre que medidas seriam essas.
Agora, tinha de fazer a proposta a Kyle, e no fazia a menor ideia de como ele reagiria.
Piper escorreu o espaguete, e quando Kyle reapareceu, tudo j estava na mesa.
	Este foi o melhor espaguete que j comi na minha vida! 	exclamou Kyle pouco depois, recostando-se na cadeira.  Voc tem que me dar essa receita, Piper.
	 muito simples  replicou ela, satisfeita com o elogio. Durante a refeio, eles haviam conversado sobre Kincade e as mudanas que ela notara na cidade desde que regressara.
	Parece que est na hora de algum ir para a cama  comentou Kyle calmamente, olhando para April, que lutava para manter os olhos abertos.  Vamos, doura. Esqueceremos o banho esta noite e vestiremos seu pijama.
	Voc vai me contar uma histria?  perguntou April sonolenta, enquanto o pai a carregava nos braos.
	No sei se voc vai aguentar ouvir at o fim, mas...
	Boa noite, Piper  disse a menina.  Obrigada por ter tomado conta de mim e me contado histrias...
	Por nada, querida...  Piper sorriu enternecida.  Eu me diverti muito com elas.
E no era mentira, refletiu ela, enquanto se levantava e comeava a tirar os pratos da mesa. Diversas vezes durante o jantar, ela pensara que se algum tivesse entrado ali e visto os trs juntos, pensaria que eram uma famlia de verdade.
Enquanto colocava a loua na mquina de lavar, ensaiava mentalmente o que dir quando Kyle retornasse. Ele ficaria surpreso, claro, mas ela tinha esperana de ter argumentos para faz-lo entender que um casamento seria conveniente para ambos.
	Como eu imaginei, ela dormiu antes de a histria terminar disse Kyle, entrando na cozinha quinze minutos mais tarde.
	Por que no esperou? Eu a teria ajudado com a loua  acrescentou, gentilmente.
 Tudo bem  disse Piper, limpando o balco. Seus nervos estavam tensos e o corao descompassado.
	Obrigado por tudo  continuou ele, com evidente sinceridade na voz.  Eu no sei o que seria de mim nestas duas ltimas semanas, se voc no estivesse aqui. Se houver alguma maneira de lhe retribuir o favor,  s falar.
O corao de Piper disparou ao ouvir aquelas palavras. Ela voltou a encontrar o olhar de Kyle.
	Bem, realmente h algo que voc pode fazer por mim.
	Diga-me!  respondeu Kyle.
	Case-se comigo.
O silncio que se seguiu foi eletrizante. Kyle olhava para ela como que hipnotizado.
	Ser que eu ouvi direito?  perguntou ele por fim, atnito.
Piper prendeu a respirao.
	Se voc me ouviu pedir para que se case comigo, sim, voc ouviu direito.
Os olhos cinzentos de Kyle brilharam como ao, mas Piper no podia decifrar o significado daquela expresso.
	Isso  alguma espcie de brincadeira?
	No  brincadeira, falo srio  assegurou Piper.
	Eu no estou entendendo...
Ele passou a mo pelos cabelos e massageou a nuca, antes de dirigir-se para a janela. Estava ficando escuro l fora e Piper podia ver a face dele refletida no vidro.
	Eu preciso de um marido  comeou Piper, tentando manter um tom de voz normal.
Kyle virou-se para encar-la, e naquele instante Piper desconfiou que ele estava controlando uma forte irritao. Talvez, at mesmo, indignao.
	Voc precisa de um marido? Certamente no est desesperada por sexo!  investiu, desdenhosamente.
Horrorizada com a possibilidade de Kyle acreditar que a necessidade de sexo era a razo de sua proposta, Piper balanou a cabea, sentindo o sangue tingir-lhe o rosto de escarlate. Por outro lado, compreendia que ele tivesse aquela reao, em vista do que acontecera anos atrs, quando ela tentara seduzi-lo.
	No  declarou com veemncia.  Eu...  Ela fez uma pausa para retomar o flego.  Os pais do... meu namorado... que morreu, como voc sabe... entraram com uma ao judicial para obter a custdia do meu beb.
Kyle franziu a testa, intrigado.
	Por qu?  quis saber.
	Porque eles alegam que, como me solteira, e com um trabalho que exige que eu me ausente com frequncia, no terei condies de proporcionar um ambiente familiar estvel para o neto deles.
Kyle arqueou as sobrancelhas, incrdulo.
No  possvel!
Foi a vez de Piper se irritar.
	Voc acha que eu inventaria uma coisa dessas?  desafiou.  Se quiser, posso lhe mostrar a carta que recebi do advogado deles ontem. Por que outro motivo eu estaria pedindo a voc, que  praticamente um estranho para mim, para se casar comigo?
	Bem, considerando que, oito anos atrs, voc era praticamente uma estranha para mim e me perguntou se eu queria fazer amor com voc, eu diria que voc seria capaz de fazer isso  respondeu ele friamente.
Piper sentiu como se tivesse sido esbofeteada por Kyle.
	Mas se voc bem se recorda, eu tinha dezoito anos naquela poca e era uma tola inconsequente. E voc fez bem em me rejeitar.
	No pense que no fiquei tentado  disse Kyle.
Piper sentiu o corao palpitar ao ouvir aquela confisso. Aquilo significava que, mesmo que por um breve momento, ele tambm a desejara...
	Mas vamos esclarecer isso  Kyle retomou o assunto principal.  Voc diz que precisa de um marido...
	Sim  confirmou ela.  Somente no nome. Seria um casamento de convenincia. Mas, perante o juiz e os pais de Wes, eu teria um argumento para ganhar a causa. Terei um marido, uma estabilidade familiar... Dessa forma, eles no podero tirar meu filho de mim, entende?
Kyle meneou a cabea em silncio, o olhar pensativo.
	Sei...  murmurou depois de alguns segundos.  Seria um casamento apenas sob o aspecto legal. Um casamento de convenincia...
Piper viu os cantos dos lbios dele se curvarem num sorriso divertido.
	Eu pensei que esse tipo de arranjo fosse do tempo em que nossas avs usavam espartilho.
	Situaes desesperadoras requerem medidas desesperadas  filosofou Piper.
Kyle deu uma gargalhada.
Pode ser  concordou ele.  Mas no sei... No sei se posso resolver seu problema.
Ao ouvir aquelas palavras, uma nova onda de calor coloriu o rosto de Piper.
	Alm do mais  continuou Kyle , por que est pedindo isso para mim? No h ningum em seu crculo de amigos ricos e bem-sucedidos disposto a ajud-la?
Piper engoliu em seco, tentando controlar o mal-estar que as palavras de Kyle lhe provocavam. Nunca se sentira to humilhada em toda sua vida, nem mesmo quando ele a rejeitara oito anos atrs.
Mas, infelizmente, precisava dele. Kyle era o nico homem que conhecia a quem poderia pedir aquele favor. E agora percebia que teria de se rebaixar, implorando-lhe que fizesse aquilo por ela.
	Eu no tenho mais muitos amigos por aqui. Pelo menos no tenho nenhum a quem possa pedir isso. A maioria deles j se casou. Mesmo que estivessem dispostos a fazer isso por mim, seria impossvel. Tenho de recorrer a algum solteiro, ou vivo, ou divorciado. Isso j restringe bastante o grupo... alvo, digamos assim.  Piper tentou colocar a questo sob um prisma de bom humor.
	Humm...  Kyle levou um dedo ao queixo, como se estivesse refletindo sobre o assunto.  E o que os seus pais pensam disso?
	Eu no contei a eles. Quero dizer, eles sabem que os pais de Wes querem a custdia da criana e que vou lutar contra eles na justia, mas no falei nada sobre a ideia de um casamento de convenincia. No sei se eles aprovariam. No que eu tenha de obedecer a eles, mas quero evitar que tenham preocupao e aborrecimento com esse problema.
	Sei...  murmurou Kyle mais uma vez, como se considerasse a questo.  Bem, seria um casamento de convenincia para voc. Mas, e para mim, qual seria a vantagem?
	A vantagem, Kyle, seria que sua tia ficaria livre para viver a vida dela.
	Vera?  Kyle franziu a testa.
	Sim. Voc sabia que Frank a pediu em casamento e ela recusou?
	Se isso  verdade, por que ela no me contou?  retrucou ele com aspereza.
	Provavelmente porque sabe o quanto voc depende dela para tomar conta de April  respondeu Piper.  Era nesse ponto que eu queria chegar. Um casamento seria a soluo perfeita para todos. Eu teria todas as chances de ganhar a custdia do beb, Vera poderia se casar e viver a vida dela e voc teria algum responsvel para cuidar de April... eu.
Piper sentia um ligeiro desconforto com a conscincia de que estava, na verdade, fazendo uma pequena chantagem emocional com Kyle para convenc-lo a concordar com o plano, fazendo-o sentir-se culpado por estar embargando a felicidade da tia.
	Voc est dizendo que ela no aceitou o pedido de Frank por minha causa?  perguntou Kyle com um tom de voz preocupado.  Para no me deixar sem ajuda para cuidar de April?
	 exatamente isso.
	Mas... mesmo que Sfja verdade...  Kyle pensou por um momento , esse... casamento de convenincia que voc est propondo... por quanto tempo seria? At os Hunter desistirem do processo? E o seu trabalho em Londres?
	Eu vendi a minha parte na loja  explicou Piper.
	E por que no usa esse argumento com os Hunter?  perguntou ele, surpreso.
	Porque eles alegariam que isso no significa que eu tenha parado de trabalhar.
	Bem, eu tenho que pensar em April  declarou Kyle,  com uma ponta de irritao.   uma situao delicada... No quero que ela venha a sofrer no futuro.
	O que voc quer dizer com isso?
	April precisa de uma me. Isso  um fato, mas ela precisa de algum permanente em sua vida. J foi abandonada pela prpria me, e no quero que passe por isso novamente.
A esperana de Piper esmoreceu como um balo que se esvaziasse. Tinha de reconhecer que o argumento de Kyle era vlido. Ao traar seu plano, pensara apenas nas prprias vantagens e nas de Kyle, sem levar a menina em considerao.
	Voc est certo, sinto muito. Eu no tinha pensado nisso. E que a ideia parecia uma resposta s minhas preces, essa  a verdade  confessou com tristeza.
	Voc  sempre impulsiva assim?
Piper sentiu que enrubescia.
	s vezes  respondeu ela, com sinceridade.
Kyle balanou a cabea.
	Por que voc no contrata um advogado e obtm um bom conselho profissional?
Piper sorriu embaraada.
	Eu contratei. Foi ela quem me sugeriu o casamento de convenincia.  Ela virou-se, para que Kyle no visse sua expresso de desapontamento.  Desculpe-me por ter incomodado voc com meus problemas. No foi uma boa ideia. E melhor eu ir embora.
	Tem certeza de que no h outra maneira?  insistiu Kyle.  Nesses casos de custdia, o juiz normalmente d a custdia  me da criana.
	No  bem assim  retrucou Piper.  Veja s, voc ganhou a custdia de April.
	Sim, mas foi diferente.
	Diferente, como?  quis saber ela, encarando-o outra vez.
	Porque Elise nunca quis April. Abriu mo dela oficialmente, sem pensar nem se arrepender. Tudo que ela queria era ir para Nova York e tornar-se uma atriz de sucesso. A carreira era mais importante do que tudo mais, at do que a filha.
Havia uma profunda amargura na voz de Kyle, e Piper lamentou que aquele assunto tivesse vindo  tona.
	Eu sinto muito  murmurou ela, mas quando o fitou captou uma centelha de raiva nos olhos cinzentos.
	No sinta. April est melhor sem ela.
	Bem, no  o meu caso, realmente  disse Piper, colocando a mo sobre a barriga.  Eu quero o meu filho. E tenho de considerar a ameaa dos Hunter com seriedade. So pessoas muito poderosas e influentes. Essa  a razo pela qual estou preparada para fazer qualquer coisa para ficar com meu beb. Kyle sustentou o olhar dela por um longo momento, antes de perguntar:
	O que voc vai fazer?
	Eu no sei... Acho que vou tentar encontrar outra pessoa.  Ela deu de ombros, resignada.
De repente, a ideia de ver Piper casada com outro homem, que aceitasse a proposta e a ajudasse a criar o filho, provocou uma reao desagradvel no ntimo de Kyle. Uma emoo que ele nunca sentira antes. Cime, pensou, contrafeito, tentando negar a verdade para si mesmo.
Ento, as palavras saram de sua boca como que por vontade prpria.
	Eu me casarei com voc.
CAPTULO V

Piper arqueou as sobrancelhas, animada.  Voc far isso? Ir se casar comigo?  indagou, com medo de acreditar.
	Com uma condio.
	Diga qual.
	Independentemente do que acontea, voc vai me prometer sempre fazer parte da vida de April, enquanto ela precisar de voc.
O corao de Kyle batia forte no peito, enquanto esperava pela resposta.
	Eu aceito!  prometeu ela, sentindo-se invadida por uma imensa onda de alvio.
	Eu imagino que voc queira que o casamento se realize o mais breve possvel  disse ele, ouvindo as marteladas do prprio corao.
	Sim  confirmou Piper.  Segundo a carta que os advogados me enviaram, j foi marcada uma audincia preliminar em Nova York para daqui a duas semanas.
	Ento  melhor voc comear logo com os preparativos  recomendou Kyle.
	Eu cuidarei de tudo  concordou ela, empolgada.  Inclusive das reservas para ir a Nova York. Diremos que  a nossa lua-de-mel.
	timo. Quanto  cerimnia de casamento, que seja pequena e simples.
Piper assentiu.
	H... quando voc vai contar a April? Eu acho que deveramos fazer isso juntos.
	Que tal amanh cedo? Podemos contar para minha tia, ao mesmo tempo.
	Eu no sei como lhe agradecer, Kyle...
	Nem precisa... Afinal,  um acordo, bom para ns dois  lembrou ele.  Falaremos mais sobre isso amanh.
Durante todo o caminho para casa, Piper tentava chegar a uma concluso sobre o que realmente levara Kyle a concordar em se casar com ela. A princpio, seus argumentos contra a ideia tinham sido fortes e vlidos. Assim sendo, por que ele, repentinamente, mudara de ideia?
Qualquer que fosse a razo, entretanto, ele lhe tirara um peso dos ombros. Estando casada com Kyle, as chances de ganhar a causa na justia aumentariam substancialmente. E isso era tudo que importava.
Piper contornou a Fazenda Diamond e, num impulso, pegou a estrada que levava ao lago. Parou a caminhonete no acostamento, desligou o motor, saltou e foi at a beira do lago.
Por entre as rvores da margem oposta, podia avistar os contornos da casa nova de Spencer e Maura. Comeou a caminhar ao longo da margem, deleitando-se com a brisa que gentilmente tocava seus cabelos. Nunca, nem em seus sonhos mais ousados, imaginara que um dia se casaria com Kyle Masters.
Piper refletiu, com uma ponta de culpa, que aquele acordo seria muito mais vantajoso para ela do que para Kyle. A condio dele, de que ela acompanhasse o crescimento de April, no era nenhum sacrifcio, ao contrrio, Piper j se afeioara  menina, e seria gratificante poder ajudar a cri-la e educ-la.
Verdade que, para Kyle, seria uma tranquilidade saber que a filha estava sendo cuidada por uma pessoa, responsvel e que lhe queria bem. Mas, por outro lado, estaria se privando de refazer a prpria vida. Por mais que se tratasse de um casamento apenas no papel, isso o impediria de unir-se de verdade a algum. Afinal, ele ainda era um homem jovem, bonito e viril.
Que tipo de mulher ele acharia atraente?, Piper pegou-se tentando adivinhar. Certamente, no o tipo dela, j que a desprezara no passado.
Seus pensamentos levaram-na de volta quela noite de vero, oito anos atrs. Seus pais e Spencer haviam ido para Kentucky passar o fim de semana, e seu irmo Marsh estava trancafiado no quarto, no andar superior, estudando para o vestibular de medicina.
Entediada e inquieta, ela pegara a caminhonete de Spencer e fora para a cidade, a fim de encontrar as amigas na lanchonete local. Mais tarde, elas passearam de um lado para o outro na avenida principal, conversando e rindo.
Piper tinha parado num posto de gasolina para abastecer a caminhonete quando Kyle, dirigindo um carro velho, estacionara do outro lado das bombas.
Ele lhe lanara um sorriso que fizera seu corao acelerar e quando sara do posto alguns minutos depois, Piper decidira, impulsivamente, segui-lo.
Achando aquilo divertido, ela e as amigas o tinham seguido atravs da cidade, at uma taverna popular, localizada no incio da auto-estrada.
Ela parara no estacionamento alguns carros atrs de Kyle, e depois de observ-lo desaparecer dentro da taverna, ficara dentro da caminhonete de seu irmo num local onde elas pudessem vigiar a porta de entrada.
Depois de uma hora, as amigas ficaram impacientes. Sharon fora a primeira a reclamar.
	Estou cansada.
	Vamos embora  apoiou Cassandra Bradford.  Voc no vai mesmo falar com ele quando ele sair...
	Mas posso segui-lo at a casa dele  disse Piper, apenas para ter um motivo para continuar esperando. No sabia de fato o que iria fazer, mas queria v-lo novamente, experimentar outra vez aquela emoo que sentia sempre que punha os olhos nele.
	Ele  muito velho para voc, Piper. Ele nem sequer sabe da sua existncia  comentou Sharon desdenhosamente.
	Ento  melhor que eu chame a ateno dele para a minha existncia  retorquiu Piper, irritada com as amigas.
	E como pretende conseguir isso?  perguntou Cassie.
	Eu sei o que voc pode fazer!  exclamou Sharon.  Quando ele aparecer, v at l e d um beijo nele!
	Sim, isso funcionaria  concordou Cassie.  Mas duvido que voc tenha coragem!
	Pode apostar que tenho  garantiu Piper.
	E se ele sair de l com uma garota?  Sharon aventou a hiptese.
Piper fez uma careta, surpresa por aquela possibilidade perturb-la tanto.
	Shh... olhe...  ele!
Piper se encolheu no banco, at ficar com os olhos no nvel da janela, enquanto Sharon apontava entusiasmada.
	Est indo para o carro e est sozinho!  continuou a garota, empolgada com o desafio.  Vamos l, Piper... V at l e d um beijo nele!
	 bom voc se apressar  aconselhou Cassie.  Ele est quase chegando no carro.
	Ela est com medo.  Sharon riu.
Ento, movida por um impulso incontrolvel, Piper desceu da caminhonete e saiu correndo pelo estacionamento. Kyle j estava abrindo a porta do carro, e ela gritou, sem flego:
	Kyle!
Ele se virou e, sob a luz de non do poste prximo, Piper viu sua expresso surpresa.
	O que aconteceu?  perguntou ele, franzindo a testa.
O fato de suas amigas estarem assistindo  cena deu a Piper a coragem que ela precisava. Sorriu para Kyle e falou, ofegante:
	Nada... Estava esperando por voc...
	Verdade?  Um sorriso cnico curvou os lbios dele, fazendo o corao de Piper disparar.  Voc no deveria estar em casa a esta hora, na cama, abraada a seu ursinho de pelcia?
A clara insinuao de que ele a considerava uma criana enfureceu Piper. Pois ela lhe mostraria quo enganado estava!
Deu um passo  frente e colou o corpo ao dele. Kyle se retesou, o que, para Piper, foi um encorajamento. Deslizou uma mo em volta do pescoo forte e com a outra segurou-lhe o rosto.
Eu quero que voc faa amor comigo  sussurrou, usando o tom de voz mais sensual que conseguiu.
Kyle arqueou as sobrancelhas em evidente incredulidade, porm, depois de alguns segundos, um brilho que Piper no conseguiu identificar surgiu nos olhos cinzentos.
Naquele momento, tudo que Piper queria era sentir a boca de Kyle na sua. J no se lembrava do desafio das amigas, nem mesmo se lembrava que elas estavam ali, era como se somente ela e Kyle existissem no mundo.
Quando Kyle inclinou lentamente o rosto para ela, o corao de Piper quase parou e a respirao ficou presa na garganta. Ela semicerrou os olhos, esperando pelo beijo.
Mas o beijo no aconteceu.
Gentilmente, porm com firmeza, Kyle empurrou-a, afastando-a, o olhar fulminante.
	Eu no me envolvo com virgens de dezoito anos que pensam que sexo  um jogo  declarou, furioso.
Aquelas palavras atingiram Piper como aoites na face.
	V para casa, Piper  ordenou ele, entrando no carro.
Com o rosto queimando, ela girou nos calcanhares e caminhou na direo do carro, com a sensao de que o cho faltava sob seus ps.
Piper nunca esquecera aquela noite, e a rejeio de Kyle a fizera chegar  concluso de que ele no sentia nenhuma atra-o por ela.
Mas, ento, lembrou-se do comentrio dele, horas antes, quando aquele assunto viera  tona: No pense que no fiquei tentado... O corao de Piper acelerou novamente. Teria Kyle desejado beij-la naquela noite? A pergunta intrigava-a mais do que ela gostaria de admitir. Um calafrio percorreu-lhe o corpo.
Mas tudo aquilo pertencia ao passado. Muitas coisas haviam acontecido na vida de ambos, e ela agora tinha de olhar para o futuro e pensar em seu bem-estar e na segurana de seu beb.
Deixando as memrias de lado, Piper comeou a fazer o caminho de volta para a caminhonete.
Enquanto dirigia para casa, volveu os pensamentos para coisas mais prticas e comeou a compilar mentalmente uma lista de preparativos para seu casamento com Kyle.
Subindo os degraus da varanda, pensou nos dias que antecederam o casamento de Spencer e no ar de excitao que tomara conta da casa.
A felicidade do casal e a alegria pelo evento prximo era in-disfarvel. Ela invejava Spencer e Maura pelo amor que to obviamente sentiam um pelo outro, evidente nos olhares e sorrisos secretos que trocavam, para no mencionar os beijos que compartilhavam quando pensavam que ningum estava olhando.
Piper suspirou. Nos ltimos meses, ela comeara a duvidar de que seria capaz de sentir por algum o amor profundo que unia seus pais e que, agora, seus dois irmos vivenciavam. Talvez isso nunca lhe acontecesse.
Quando entrou na cozinha, ouviu vozes vindas da sala de estar. Como sua famlia reagiria quando lhes contasse que iria haver outro casamento na famlia? E o que diriam se soubessem que no era por amor, mas sim um casamento de convenincia?
Estava agradavelmente quente na manh seguinte, quando Piper parou no estacionamento da clnica. Saindo da caminhonete, disse para si mesma que tinha de marcar uma consulta com o dr. Adamson, antigo mdico da famlia.
O mdico que ela consultara na Inglaterra sugerira que ela comeasse a fazer um acompanhamento semanal da gravidez.
Quando se aproximou da porta da clnica, Piper diminuiu o passo, subitamente nervosa com a perspectiva de ver Kyle. Na noite anterior, ele concordara em se casar com ela. E se tivesse mudado de ideia?
No, no voltaria atrs em sua palavra. Kyle no era esse tipo de homem. As poucas semanas em que trabalhara com ele haviam sido suficientes para mostrar como se preocupava com a filha, com a tia e com a clnica. Silenciosamente, ela reconheceu que, considerando o fato de que Kyle fora deixado sozinho com um beb recm-nascido para criar e um trabalho que exigia tempo e dedicao, ele havia se sado admiravelmente bem.
Piper notara o entendimento amoroso entre ele e a filha, e era bvio que eles tinham uma relao maravilhosa. O beb dela seria afortunado por ter Kyle como pai, mesmo que fosse apenas um arranjo temporrio.
Repentinamente, a porta de trs se abriu e os cachorros entraram, latindo como se a estivessem saudando. Kyle parou na porta.
	Eu achei que tinha ouvido o barulho de um carro.
	Ol  cumprimentou Piper. Ela estava se sentindo um pouco sem graa, mas precisava saber.  H... Eu estava pensando... quero dizer, voc...
	Se eu mudei de ideia?  completou ele, com um leve sorriso no rosto.
	Eu imaginei que talvez,  luz do dia...  Piper sorriu tambm.
	Eu no mudei de ideia  ele assegurou.  Mas talvez voc tenha encontrado uma outra soluo.
	No, no  disse ela rapidamente ,e sentiu o rosto corar sob o firme olhar dele.  Eu contei para os meus pais ontem  noite, quando cheguei em casa  acrescentou, enquanto o seguia atravs do hall at a recepo.
	E o que eles disseram?
	Ficaram surpresos,  claro! Eu... h... disse a eles que ns reatamos um... namorico de anos atrs.
	Eu me lembro muito bem daquela noite  afirmou Kyle, em tom de voz divertido, fazendo-a enrubescer ainda mais.
	 que... bem, foi um tanto repentino... ento achei que seria melhor dar uma explicaojustificou-se ela.
	Eles aprovaram?
	Eles no desaprovaram  respondeu Piper. Mas havia percebido os olhares de preocupao que os pais trocaram e sabia que estavam ansiosos.
	Uma vez que a notcia se espalhe, as pessoas vo falar e especular sobre o motivo de estarmos nos casando to rapidamente  disse Kyle.
	Ns no pensamos nisso, ontem  admitiu ela.
	Est preocupada que eu no seja um bom pai para o seu beb?  perguntou Kyle, apreensivo.
Piper sorriu.
	Depois de v-lo com April, no tenho dvidas de que voc ser um pai maravilhoso. Eu estava pensando que poderia ser difcil para voc aceitar uma criana de outro homem.
	Esteja certa de que, como pai substituto do seu beb, eu o amarei como se fosse meu prprio filho.
Lgrimas brotaram dos olhos de Piper. No haveria fim para a generosidade daquele homem? Ela engoliu em seco, reprimindo a emoo que repentinamente apertava sua garganta.
	Obrigada  conseguiu dizer.
Kyle consultou o relgio.
	Se ns quisermos contar a novidade para April e Vera antes que a clnica abra,  melhor nos apressarmos.  Ele segurou a mo de Piper.
Ela dirigiu-lhe um olhar espantado.
	Se ns dermos as mos, pelo menos vamos parecer um casal de namorados.
	Oh...
	Quando um casal anuncia que vai se casar, normalmente  porque esto perdidamente apaixonados. Voc contou a seus pais que ns retomamos um relacionamento. Se vamos contar a Vera a mesma histria, precisamos agir como um casal de noivos.
	Acho que voc tem razo  concordou Piper, com uma sbita euforia.	.,
Ela lhe estendeu a mo, e quando os dedos de Kyle circundaram os seus, Piper sentiu um choque, como se uma corrente eltrica percorresse toda a extenso do seu brao.
Enquanto subiam a escada de mos dadas, ela refletiu que no seria to difcil, afinal, fingir que estava apaixonada por Kyle Masters.
CAPTULO VI

	Voc e Piper vo se casar?  A surpresa de Vera era evidente na voz e na expresso facial.
	Sim  confirmou Kyle, colocando o brao sobre os ombros de Piper e puxando-a para si.
Piper esforou-se para manter o sorriso, tentando ignorar as emoes contraditrias que a avassalavam.
	Ns sabemos que foi repentino, mas o que vocs no sabem  que Piper e eu tivemos um relacionamento alguns anos atrs. E agora que ela voltou, a chama se reacendeu.
Kyle falava com tanta naturalidade que Piper sentiu o corao doer. Ah, se tudo aquilo fosse verdade... Se no precisassem fingir, se se amassem de verdade e o casamento fosse real...
	Piper vai ser minha me?  perguntou April, os olhos arredondados de expectativa.
	Sim  concordou Kyle.
A menina voltou-se para Piper.
	E voc vai morar na nossa casa e tomar conta de mim e de papai?
	Sim  prometeu Piper.  E logo, logo, voc ter um irmozinho ou irmzinha, para brincar  acrescentou ela, imaginando como April reagiria  notcia.
April franziu a testa, pensativa, antes de anunciar:
	Pode ser um irmo, em vez de irm?
Kyle riu, e Piper sentiu a tenso se dissipar.
	Ns teremos que esperar para saber. O beb j est aqui  ele fez um gesto com a mo indicando a barriga de Piper ,  seja menino ou menina.	
Ele virou-se para a tia.	
	Eu sei que  uma surpresa, mas espero que seja uma surpresa agradvel...	
	Ainda estou tentando entender  falou Vera, perplexa porm visivelmente empolgada com a ideia.  Eu no sabia	 que vocs haviam sido namorados...	
Ela juntou as palmas das mos, numa demonstrao de contentamento.	
	Bem, meus queridos, se vocs esto felizes, eu tambm estou! Parabns!	
Ela abraou Piper e depois Kyle, e Piper percebeu um brilho mido nos olhos cansados.	
	Ah, no me diga que vai chorar!  brincou Kyle, bem- humorado.  Pensei que voc fosse me dizer que j era tempo de eu me casar novamente!	
Vera sorriu emocionada.	
	Tem razo,  exatamente o que eu acho  replicou, segurando a mo de Kyl numa carcia maternal.  No vejo a hora de contar para Frank... Ele no vai acreditar! 
	E agora que voc no precisa mais que se preocupar comigo e com Apri, quem sabe quando Frank sair do hospital, vocs dois faam o mesmo...  insinuou Kyle.
Vera desviou o olhar e corou levemente.
	Ora, Kyle, eu no...
	Voc, sim, tia Vera  contraps ele com autoridade e carinho na voz.  Est na hora de pensar um pouco em voc.
A boa senhora sorriu outra vez, sem jeito.
	Quando ser o casamento? No Natal?
	Assim que possvel  respondeu Kyle, virando-se para Piper.  Quanto tempo  necessrio para providenciar tudo?
Piper sentiu o corao acelerar.
	Creio que uma semana seja suficiente...
Vera arregalou os olhos, espantada.
	Uma semana?
	Ser uma cerimnia muito simples e ntima  explicou Piper.  J falei com meus pais e decidimos realizar o casamento l em casa, mesmo. S preciso falar com o reverendo Cooper para saber quando ele estar disponvel.
April, que tinha permanecido em silncio at ento, de repente se pronunciou:
	Posso ser sua dama de honra?  Ela olhou esperanosa para Piper.  Minha amiga Sara foi dama de honra uma vez e usou um vestido lindo. S que eu no tenho um vestido...
	April, eu adoraria que voc fosse minha dama de honra 	disse Piper comovida.  Quanto ao vestido, podemos com pr-lo esta semana  acrescentou, sentindo uma felicidade
indescritvel por ser to prontamente aceita por aquela criana.
Piper passou a manh tentando concentrar-se nos arquivos de contabilidade, mas seu pensamento se voltava constante-mente para o fato de que, dali a pouco mais de uma semana, ela seria a sra. Kyle Masters.
Um tremor de apreenso... ou seria excitao?... desceu por sua espinha. Agora que eles haviam anunciado o casamento, no havia mais volta. Porm, para ela, ainda no parecia real. Tudo estava acontecendo muito depressa.
Resoluta, ela voltou a ateno para a pilha de correspondncia acumulada sobre sua mesa.
	Chega por hoje  disse Kyle, depois que fechou a porta atrs de Bob Brooke e seu cachorro Nessie, a ltima consulta marcada para aquele dia.  Como vai indo a papelada?  perguntou ele a Piper.
	Estou quase acabando.
	Isso  timo  comentou ele.  Eu estava pensando que, com a chegada do beb, voc no deveria trabalhar por algum tempo.
	Eu gosto de trabalhar  contestou ela.
	Mas quando o beb nascer, voc ficar muito ocupada 	observou ele.  Alm do mais, este seu trabalho foi somente um arranjo temporrio, at eu encontrar algum. Alguma resposta ao meu anncio?
Piper meneou a cabea.
	Quer que eu telefone para a redao do jornal e pea que publiquem outra vez?
	 uma boa ideia  concordou ele.
	E tambm vou falar com minha me  ofereceu Piper.  Ela conhece muitas pessoas, frequenta vrios clubes, e pode comentar que voc est procurando uma nova recepcionista...
	Papai, Nana disse que o almoo est pronto!  A chegada de April a interrompeu.
	timo! Estou com tanta fome que poderia comer um ele fante!  brincou ele com a filha.
April riu.
	Papai, voc no pode comer um elefante, eles so grandes demais e, alm disso, vivem na selva.
	Bem, se eu no posso comer um elefante, terei que procurar uma garotinha.  Com um rpido movimento, ele levantou April nos braos e comeou a emitir sons que imitavam mastigao contra a barriga dela.
Os gritos de alegria de April fizeram Piper sorrir, enquanto observava Kyle com a filha.
Voc vai conosco ver o tio Frank depois do almoo?  perguntou April, voltando-se para Piper, quando Kyle a colocou no cho.
	Eu posso dar uma passada l, depois da minha consulta com o dr. Adamson  disse ela.
	Algum problema?  indagou Kyle, olhando para ela apreensivo.
	No,  apenas uma consulta de rotina  Piper tranqilizou-o.  No final da gravidez,  recomendvel fazer um controle semanal.
	Voc deveria ir com ela, Kyle  aconselhou Vera, entrando na sala.
	Bem... eu no... quero dizer, no h necessidade  Piper tropeou nas palavras.
	Eu tenho a tarde livre.  claro que irei, se voc no se importar  disse Kyle.
	Claro que no, seria timo  replicou ela, sabendo que ele estava simplesmente seguindo o conselho da tia.
	Posso ir tambm?  perguntou April.
	Eu acho que  melhor voc ficar comigo e Frank  apressou-se Vera a dizer.
	Mas eu quero ir com papai e Piper  April resmungou.
	Quem sabe, depois que sairmos do mdico, vamos comprar seu vestido de dama de honra?  sugeriu Piper, tentando apaziguar a criana.
O sorriso de April instantaneamente reapareceu e ela voltou-se para o pai:
	Ns podemos ir, papai? Por favor...
	 uma boa ideia. Eu tenho algumas coisas para fazer na cidade. A rao dos cachorros est acabando.
Piper planejara levar April s compras sozinha, certa de que Kyle no teria pacincia de entrar em lojas e esperar que escolhessem um vestido, sapatos e tudo mais. No entanto, parecia que se enganara. No pela primeira vez, ela percebeu que Kyle Masters era um homem de mltiplas facetas, um homem cuja personalidade a surpreendia a cada dia, aumentando o respeito e admirao que sentia por ele. Kyle era um homem que qualquer mulher se orgulharia em ter como marido.
Uma agradvel onda de calor espalhou-se por seu corpo ao pensar que ela e seu filho fariam parte da famlia de Kyle.
	Ela est dormindo  murmurou Piper, olhando para o banco traseiro da caminhonete de Kyle, enquanto ele dirigia pela avenida que ligava o centro da cidade ao bairro onde ficava a clnica veterinria.
Estavam voltando para casa depois de passar a tarde escolhendo uma roupa para April.
	Se eu tivesse experimentado a quantidade de vestidos que ela provou hoje, tambm estaria exausto  comentou Kyle, sorrindo para Piper.
Ela retribuiu o sorriso. Apreciara imensamente aquela tarde e se surpreendera com a infinita pacincia de Kyle para com sua filha, que desfilara na frente deles com uma dezena de vestidos diferentes.
No final, April escolhera um modelo rosa e branco que combinava perfeitamente com seus cabelos loiros dourados e olhos azuis. Depois, Kyle convidara-as para jantar, e Piper se regalara com um prato de salada completa e um sorvete como sobremesa.
	Foi um longo dia. Como est se sentindo?  perguntou ele com voz preocupada.
	Estou um pouco cansada  confessou ela.
	H quanto tempo o dr. Adamson  mdico da sua famlia?
	Desde que eu me lembro de existir  respondeu ela.
O dr. Adamson os recebera calorosamente, congratulando-os com amabilidade e ternura pelo casamento. Depois do exame, ele assegurara que o beb tinha um batimento cardaco forte e que tudo corria bem. Quando perguntou se Piper tinha se inscrito no curso preparatrio, ela lhe respondera que ainda no tivera tempo, e o mdico insistira para que o fizesse o quanto antes, pois, alm de orientao sobre como cuidar de um recm-nascido, o curso preparava a gestante para o parto.
 meno do parto, o corao de Piper disparou, porm conseguiu disfarar sua ansiedade com um sorriso educado. Havia proposto a si mesma no pensar muito sobre o que vinha pela frente... nem no parto nem na responsabilidade de ter uma criana sob seus cuidados.
Sabia, entretanto, que estava sendo tola e imatura. Enterrar a cabea no cho feito um avestruz e fazer de conta que o beb chegaria no bico de uma cegonha no era a maneira cor-reta de lidar com seu medo.
Na verdade, Piper no queria que Kyle soubesse que estava com medo. Esta era uma fraqueza que ela no gostaria de admitir para ningum. Quando criana, causara problemas para a me, teimando em fazer tudo o que os irmos mais velhos faziam, muitas vezes envolvendo-se em situaes perigosas. Com isso, acabara ganhando a reputao de menina levada e destemida, at mesmo na escola.
Uma das faanhas mais marcantes, e que lhe servira de lio, fora quando quase se afogara no rio, aos dezesseis anos de idade, graas  prpria insensatez. Na poca, sua amiga Kate, agora sua cunhada, assumira a culpa. Piper ento compreendera que seu comportamento estava criando problemas no apenas para si prpria como tambm para outras pessoas. 
Depois de aceitar o merecido castigo, Piper comeara a agir com mais responsabilidade. Mas isso no inclua admitir seus medos, e o trabalho de parto estava em primeiro lugar na lista!
	Voc deveria se matricular no curso pr-natal que o dr. Adamson mencionou  encorajou Kyle.
	Sim  concordou ela, com um suspiro.
	Fale-me sobre o pai do seu beb  pediu ele, pegando-a de surpresa.
Piper olhou-o de soslaio.
	Eu conheci Wes em Paris, h dois anos  comeou ela.  Ele era reprter e estava atrs de uma matria poltica, e eu fotografava um desfile de modas. Ele era muito charmoso, divertido... mas era tambm agitado demais. Fazia loucuras, sabe? E foi por isso que acabou perdendo a vida...
As recordaes voltaram, vvidas, e Piper se deu conta de que a intrepidez que a princpio a atrara em Wes tinha sido tambm a razo do rompimento.
Ela se irritava com o fato de Wes parecer gostar dos riscos que corria  procura de uma boa reportagem. Nada o impedia de correr perigo, como se a aventura em si fosse mais importante para ele do que a reportagem. E, no final, aquele anseio de enfrentar tudo e todos fora o que causara sua morte.
Piper acreditara que estava apaixonada por ele e vice-versa e que, quando o trabalho exigisse menos de ambos, estariam preparados para se casar. Agora sabia que Wes nunca tivera esse sonho. O trabalho era a coisa mais importante na sua vida.
A carreira era importante para Piper tambm, e algumas vezes, tarde da noite, quando no conseguia dormir, sentia falta da excitao, do tumulto e da agitao que envolviam todo evento fotogrfico. Havia voltado para casa para reavaliar a vida e decidir o que fazer dali para frente, agora que teria um filho. Fora a ameaa dos Hunter que fizera com que pedisse a Kyle para se casar com ela mas, estranhamente, a certeza de que ele estaria a seu lado era reconfortante.
	Como ele morreu?  A pergunta de Kyle interrompeu seus pensamentos.
	Num acidente de carro quando estava a servio na sia  disse ela, sentindo a voz tremer. Nunca conseguira se conformar com aquela morte prematura, estpida e sem sentido. Kyle entrou no estacionamento da clnica e parou a caminhonete ao lado do carro de Piper. Ento voltou-se para ela, seu belo perfil destacando-se contra o cu escuro.
	Voc deve t-lo amado muito  murmurou ele, srio.  Eu lamento que isso tenha acontecido, Piper.
A evidente sinceridade na voz de Kyle fez com que os olhos dela se enchessem de lgrimas. Antes que pudesse responder, Kyle j estava fora da caminhonete. Abriu a porta de trs e tocou no ombro de April.
	Acorde, doura  disse ele, enquanto destravava o cinto de segurana.
	J estamos em casa?  perguntou a menina, sonolenta.
	Sim. E voc vai direto para a cama, mocinha.
	E o meu vestido...  murmurou ela, despertando de repente.
	Est aqui  disse Piper, mostrando a sacola em sua mo.  No se esquea de pendur-lo, para no amassar.
April esfregou os olhos e estendeu a mo para pegar a sacola.
	Obrigada por tudo, Kyle  agradeceu Piper, procurando a chave de seu carro na bolsa.
	Papai, voc no vai dar um beijo na Piper?  perguntou April.  Minha amiga Sara disse que as pessoas que vo se casar se beijam o tempo todo, ento voc tem que beijar Piper.
Piper e Kyle se entreolharam por um instante, e ela pensou que seu corao fosse saltar pela boca ao vislumbrar um brilho intenso nos olhos cinzentos. Antes que pudesse se mover ou falar, Kyle inclinou-se e tocou seus lbios com os dele num beijo que a elevou aos cus. A boca de Kyle era quente, firme e macia ao mesmo tempo, e o beijo prolongou-se por alguns segundos.
	Boa noite, Piper.
	Boa noite  respondeu ela meio zonza.
Encontrando a chave, ela abriu a porta e deslizou desajeitadamente para dentro do carro. Com os dedos trmulos, deu partida no motor e manobrou para sair do estacionamento.
Enquanto dirigia para casa, o gosto de Kyle, como um delicioso licor, permanecia em seus lbios.

CAPTULO VII

Piper estava em seu quarto na casa da fazenda, olhando para o prprio reflexo no espelho da penteadeira. Usava um vestido de seda creme que a me a ajudara a escolher e prendera os longos cabelos castanho-es-curos em um coque na base do pescoo.
Era o dia de seu casamento. Deveria estar emocionada e excitada diante da perspectiva de se casar, mas em vez disso estava plida e tensa. Diversas vezes durante a ltima semana, pegara-se imaginando se no estava cometendo o maior erro de sua vida. Seria justo entrar num casamento sem amor, tanto para ela quanto para Kyle? E se ela descobrisse que no nascera para ser me?
Embora tivesse criado um forte lao de amizade com April, isso estava longe de torn-la a me do ano. E ela ainda no tinha a menor noo de como cuidar de um beb recm-nascido. Uma srie de dvidas e medos a assombrava e, por uma frao de segundo, questionou-se se no seria melhor ter concordado com a oferta dos Hunter.
Mas no mesmo instante arrependeu-se de tal pensamento. Passou as mos na barriga arredondada, sobre o tecido macio de seu vestido de noiva, secretamente pedindo perdo a seu beb. Nunca concordaria em separar-se dele, nunca! Fora o medo que a alertara para aquela alternativa, mas ela enfrentaria o que fosse preciso, at o fim, para ter seu filho consigo. Nem mesmo os avs paternos conseguiriam tir-lo dela.
E, afinal, no devia ser a primeira mulher, nem a ltima, a se sentir insegura diante da perspectiva de ser me.
O beb pareceu dar uma cambalhota dentro dela, e Piper sorriu. Ora, era natural sentir medo da hora do parto... e da responsabilidade que viria a seguir... Mas se tantas outras mulheres no mundo passavam por isso, por que ela no conseguiria?
Uma leve batida na porta do quarto interrompeu o devaneio de Piper.
	Entre...
	Ol, maninha. Somos ns.  Spencer e Marsh surgiram na porta.  Viemos ver como voc est.
Um amor intenso invadiu o corao de Piper ao ver os irmos. Ela sorriu.
 Estou contente que tenham vindo, meninos. E no estou to atarefada que no possa aproveitar um pouquinho a companhia de vocs.
Spencer e Marsh estavam muito elegantes. Spencer, que seria o padrinho de Kyle, usava um smoking escuro com um boto de rosa na lapela, enquanto o mais novo usava um impecvel terno cinza-chumbo.
Os dois foram na direo de Piper e Spencer envolveu-a em um abrao fraternal. Ela permaneceu nos braos dele por um longo tempo, com os olhos fechados, incapaz de reprimir as lgrimas.
	Minha vez  disse Marsh, arrancando-a gentilmente dos braos do irmo e beijando-a na testa.
Piper sorria e chorava ao mesmo tempo, enquanto pegava um leno de papel na caixa sobre a penteadeira.
	J esto todos aqui?  perguntou ela.
Eram quase duas horas da tarde, e da janela do quarto ela avistara o reverendo Cooper chegar, meia hora antes.
	Todos, menos o noivo  disse Marsh.
O sorriso de Piper desapareceu enquanto a ansiedade aumentava. Kyle no teria mudado de ideia!
	No se preocupe  Spencer tranqilizou-a.  Ele j telefonou avisando que est a caminho. Teve um pequeno problema com a caminhonete, mas j est resolvido.
Piper respirou aliviada.
	Eu esperava que ele fosse chegar aqui mais cedo, assim eu poderia amarrar latas velhas e botas no pra-choque do carro  comentou Marsh.
Spencer envolveu as mos de Piper nas suas.
	Marsh e eu estivemos muito ocupados esta ltima semana e no tivemos oportunidade de conversar com voc.
	As coisas tm estado muito agitadas  reconheceu Piper.
	Como irmos mais velhos,  nosso dever proteger voc 	disse Marsh.  Tudo aconteceu to depressa que... bem, ns s queremos ter certeza de que sabe o que est fazendo. 
	No nos interprete mal, ns gostamos muito de Kyle 	apressou-se Spencer a dizer.  Ele  um sujeito extraordinrio, mas...
	Mas vocs esto preocupados que eu tenha tomado uma deciso precipitada,  isso?
Piper tentou desvencilhar-se, porm Spencer apertou suas mos com mais firmeza. Ela encontrou o olhar do irmo e emocionou-se com o afeto que podia ver na expresso dele.
Ento sorriu para um e depois para o outro.
	Eu aprecio muito a preocupao de vocs, mas fiquem tranquilos  disse ela, fazendo um esforo mximo para parecer convincente.  Sei que foi meio repentino, mas sei muito bem o que estou fazendo. E ele tambm.
Spencer esfregou as mos dela e dirigiu-lhe um sorriso antes de pux-la para seus braos uma vez mais.
	Ns s queramos ter certeza  repetiu Marsh, pousando uma mo no brao de Piper.  Tudo o que queremos  que voc seja feliz.
Ele inclinou-se para beij-la na face e passou a ponta do dedo pelo nariz dela.
	Posso saber do que se trata esta conferncia?
Os trs se voltaram para a porta, onde Elliot Diamond estava parado, muito distinto num terno escuro com colete e um cravo na lapela.
	Eles esto fazendo o papel de irmos mais velhos protetores, papai  respondeu Piper, sorridente.
Elliot adiantou-se e beijou a filha.
	Est pronta, minha querida?
Piper assentiu com a cabea, ignorando uma ligeira contra-o no estmago.
	Prontssima.
Virou-se para a penteadeira, pegou o delicado buque de mini-rosas e, encostando-o  barriga saliente, segurou o brao que seu pai lhe ofereceu.
De p junto  ampla janela da sala de estar da casa dos Diamond, Kyle demonstrava inquietao e ansiedade. A seu lado, Spencer deu-lhe um sorriso encorajador e acenou em di-reo  porta.
Kyle voltou-se para ver a filha usando o lindo vestido de dama de honra rosa e branco, segurando uma cestinha de mini-rosas exatamente iguais s do buque de Piper. Seu sorriso era largo e brilhante. Parecia uma pequena fada encantada.
Ele sorriu, inundado por um sentimento intenso de amor e orgulho. Ento, um movimento atrs da menina atraiu-lhe a ateno para Piper e 'o pai, que desciam a escada. Involuntariamente seu corpo inteiro se retesou, ao v-la usando um encantador vestido creme, que a deixava elegante mesmo grvida, e carregando um buque de rosas pequeninas.
A respirao de Kyle ficou presa na garganta. Ele sempre a considerara uma das mulheres mais belas que j conhecera, mas, de alguma maneira, a gravidez lhe concedera uma aura estranhamente ertica, tornando-a, mais do que nunca, desejvel.
Apenas uma hora antes, ele tivera srias dvidas sobre se estava agindo corretamente. No que tivesse pensado em desistir, no quela altura dos acontecimentos, mas no era um homem de natureza impulsiva, e no teria tomado uma deciso como aquela, que afetaria to profundamente sua vida, se no fosse a possibilidade de Piper se casar com outra pessoa.
Esta era uma ideia que ele no poderia suportar. Por outro lado, todos os aspectos daquela situao o faziam sentir-se deslocado: a deciso tomada s pressas, sem muito refletir; a famlia de Piper, que, embora Kyle sempre tivesse admirado, pertencia a um nvel social bem superior ao seu; e at o smoking que Spencer lhe arranjara, que o fazia sentir-se como numa camisa-de-fora.
Entretanto, um sentimento muito mais forte imperava. Uma emoo que ele no sabia explicar, no conseguia definir, e que se intensificou quando seu olhar encontrou o de Piper, que vinha em sua direo de brao dado com o pai. Kyle percebeu que o buque tremia ligeiramente nas mos dela, enquanto ela lhe dirigia um sorriso tmido. Ento respirou fundo e orou em silncio para que conseguisse ajudar Piper a ficar com seu beb, para ser capaz de fazer por ela tudo o que ela precisasse.
Parece que Kyle no v a hora de arrancar a gravata e desabotoar o colarinho  comentou Vera, rindo, enquanto ela e Piper bebiam ch.
O jantar ntimo que os Diamond ofereceram para comemorar a ocasio tinha sido delicioso, e agora os convidados conversavam descontraidamente na confortvel sala de estar.
Piper sorriu.
	Eu acho que voc est certa.  Ela viu Kyle passar o dedo ao longo do colarinho da camisa, enquanto dizia algo para seus irmos. Mas por mais desconfortvel que parecesse estar se sentindo, Piper tinha de admitir que ele estava incrivelmente bonito de smoking.
	Acho que  melhor eu ir procurar Frank.  hora de lev-lo para casa. Ele saiu do hospital h apenas poucos dias.  Vera levantou-se do sof e colocou a xcara e o pires na mesinha de centro.
Piper reclinou-se no sof e fechou os olhos. Ento comeou a girar a aliana de ouro na mo esquerda e viu-se recordando o momento, durante a crimnia, em que o reverendo Cooper perguntara a Kyle sobre as alianas.
Somente ento ela cara em si de que tinha se esquecido totalmente daquele detalhe. E ficara atnita quando Kyle retirara de dentro do bolso interno do palet uma caixinha de veludo com um par de alianas de ouro, finas e simples.
Quando ele colocara o aro em seu dedo, Piper sentira vontade de chorar de emoo. Tudo parecia to real! E era o que todos acreditavam ser... menos ela e Kyle, que sabiam que no passava de um acordo, conveniente para ambos.
E quando Kyle beijara delicadamente seus lbios no final da cerimnia, ela se deixara levar por um doce momento de magia, fazendo de conta que era tudo verdade...
	Voc parece cansada, querida.
Piper abriu os olhos e viu Kate, a esposa de Marsh, ocupar o lugar que Vera deixara.
	Eu estou um pouco cansada mesmo  reconheceu ela.
	Posso trazer alguma coisa para voc? Um copo de gua ou suco?  perguntou Kate.
	No, obrigada, Kate  disse Piper.  Onde mame e Maura esto?
	Elas esto na cozinha, provavelmente.
	E as meninas?  Ela no vira April nem Sabrina, sua sobrinha, desde a hora em que haviam cortado o bolo.
	L em cima no quarto de brinquedos. Isto , eu imagino  acrescentou Kate. 
Piper e Kate eram amigas desde adolescentes, e fora nessa poca que Kate se apaixonara por Marsh. Mas fora somente dez anos depois que haviam se reencontrado.
Kate trabalhava como enfermeira no hospital de Kincade quando Marsh voltara para assumir o cargo de diretor do hospital. Um pequeno acidente o deixou temporariamente cego, e ele props a Kate que o ajudasse em casa, inclusive para tomar conta de Sabrina. Depois de resolver alguns conflitos do passado, o amor voltara a florescer, para grande alegria de Piper.
Aps se casarem, construram uma casa perto do hospital, e fora l que Cole, o irmozinho de Sabrina, agora com oito meses, nascera.
	Elas se do bem  comentou Kate.
	Foi muito gentil de sua parte oferecer-se para tomar conta de April por alguns dias, enquanto ns vamos para Nova York  agradeceu Piper.
	 o mnimo que Marsh e eu podemos fazer  disse Kate quando os trs homens juntaram-se a elas.  Alm disso, a lua-de-mel  muito importante... Mas o que fez vocs se decidirem por Nova York, Piper? Voc j esteve l dezenas de vezes.
	Ah... bem...  gaguejou Piper.
	Foi minha escolha  interveio Kyle calmamente.  Eu sempre quis conhecer Manhattan.
Piper sentiu o rosto corar, sabendo que a viagem para Nova York no tinha nada a ver com uma lua-de-mel.
	O dr. Adamson autorizou voc a viajar de avio?
	Eu no perguntei  replicou Piper, encenando um bocejo.
	Oh... eu pensei que nesse estgio adiantado da gravidez, ele recomendasse no viajar. No sei se a companhia area vai permitir que...
Kyle olhou para Piper, porm, antes que algo mais pudesse ser dito, April e Sabrina se aproximaram saltitando.
Vinte minutos mais tarde, Piper estava reprimindo um bocejo quando Kyle sentou-se a seu lado.
	Eu acho que j  hora de lev-la para casa.
Ao ouvir aquelas palavras, ela sentiu um calor agradvel tomar conta de seu corpo. Ento encontrou o olhar de Kyle e seu corao se apertou.
	Eu quero lhe agradecer por ter prosseguido com tudo isso.
Os olhos dele cintilavam e Piper percebeu que seu maxilar  se contraiu levemente.
	Eu dificilmente volto atrs com minha palavra.
Nora juntou-se a eles.
	Querida, acabei de ouvir Sabrina e April cochichando na escada. Elas esto l fora, esperando que vocs saiam. Spencer deu um saco de arroz para cada uma, mas parece que j derramaram metade no hall.
Piper riu baixinho e olhou para Kyle.
	 melhor irmos logo, antes que no sobre nada para elas jogarem.
Kyle ajudou Piper a levantar-se. Depois passou um brao sobre seus ombros e pigarreou alto para chamar a ateno de todos.
	J  hora de levar minha esposa para casa  anunciou.  Mas antes de partirmos, gostaria de agradecer a todos por terem tornado o dia de hoje to especial para ns.
	No se esquea do buque  avisou a me de Piper, estendendo as flores para a filha, depois que eles tinham se despedido.
Quando Piper e Kyle chegaram  varanda, Sabrina e April comearam a jogar punhados de arroz sobre eles.
Kyle rapidamente pegou sua filha, levantando-a nos braos, o que deu a ela oportunidade de esparramar um punhado de arroz em sua cabea.
	Eu lhe peguei, papai  disse April, alegremente.
	Sim, voc me pegou  respondeu ele, rindo para ela.  Piper e eu estamos partindo agora. Divirta-se com Sabrina. 	Ele a beijou.  Eu te amo, meu anjinho.
	Eu tambm te amo, papai.  April beijou o pai e voltou-se para Piper:  Eu estou feliz por voc ser minha nova me.
	Ela inclinou-se para beijar Piper.
Piper ficou emocionada e os olhos marejaram-se de lgrimas.
	E eu estou feliz por voc ser minha nova filha.
Kyle ps a filha noycho, e colocando os braos em volta da cintura de Piper, conduziu-a pela escada.
Uma vez sentada na caminhonete, Piper, com os olhos embaados de lgrimas, volveu seu olhar para a famlia de p na varanda, sorrindo e acenando.
Kyle deu partida no motor e ento buzinou repetidas vezes, enquanto partiam.
Nenhum dos dois falou por algum tempo. Piper tirou os gros de arroz dos cabelos e ento olhou para o homem a seu lado. Os cabelos estavam cheios de gros de arroz, mas, de alguma forma, isso o tornava mais fascinante ainda.
Por trs das plpebras semicerradas, ela estudou o novo marido, notando com um sorriso que ele j afrouxara a gravata borboleta e desabotoara o colarinho da camisa.
Parecia descansado e extraordinariamente bonito e quando os pensamentos voltaram para as ltimas poucas horas, o corao acelerou pela percepo de que Kyle Masters era seu marido... na doena e na sade... para o bem e para o mal.
Durante a cerimnia de casamento e durante toda tarde, Kyle tinha sido corts e atencioso, um perfeito cavalheiro, um homem que qualquer mulher sentiria orgulho de ter como marido.
Mas como o prprio casamento, aquilo no tinha sido verdadeiro. Ele estivera desempenhando um papel apenas para mostrar-se a uma plateia e s suas famlias. E representara muito bem.
Piper notou os pensamentos voltando-se para Elise. Ele teria pensado nela hoje? O que teria acontecido de errado no relacionamento deles?, perguntava-se ela.
Kyle havia dito que Elise no quisera April, mas mesmo que isso refletisse pessimamente no carter da mulher com quem se casara, no significava necessariamente que ele deixara de amar a me de sua filha.
Aquele pensamento lhe apertou o corao. Ento relembrou que seu casamento era um arranjo de convenincia, nada mais, um arranjo que ela estava certa que Kyle honraria at determinado tempo, quando um ou ambos quisessem a prpria liberdade.
Ento por que estava repentinamente querendo mais, desejando que tudo fosse verdadeiro, que tudo tivesse um final feliz?
	CAPTULO VIII

	Eu coloquei as caixas que Spencer I mandou no outro dia em seu quarto 	disse Kyle, enquanto subiam a escada para o apartamento.
	Obrigada  replicou Piper.
Kyle destrancou a porta e ficou de lado para deix-la passar.
	Fica estranho sem April por aqui  comentou ele.
	 a primeira vez que ela passa a noite fora de casa?  perguntou ela, tentando no se sentir desapontada por ele no t-la carregado nos braos para dentro do apartamento.
	No.  Ele a seguiu enquanto entravam, tirando o palet do smoking e jogando-o sobre a poltrona.  Ela j dormiu na casa de Vera algumas vezes, quando fui chamado para emergncias.
Kyle tirou a gravata e comeou a desabotoar a camisa.
	Voc est preocupado se ela ficar bem com Sabrina,  isso?  indagou Piper.
Olhando para Kyle, sentiu a boca secar. Ele franzia a testa, enquanto lutava com as abotoaduras. O olhar dela dirigiu-se para o peito bronzeado que estava visvel atravs da camisa aberta.
No que ela nunca tivesse visto um trax masculino nu antes, mas por razes com as quais no conseguia atinar, a viso daquele peito musculoso e bronzeado a fazia cambalear.
	No estou preocupado, eu sei que ela ficar bem  disse ele, ainda tentando abrir as abotoaduras.  Mas que coisa... murmurou, sacudindo o brao.
	Deixe-me ajud-lo  ofereceu Piper.
Largando o buque, ela ficou na frente dele e Kyle esticou os braos. Com dedos hbeis, ela abriu primeiro uma abotoadura depois a outra.
	Pronto.
Piper levantou a cabea e o encarou, e de repente a atmosfera entre eles ficou tensa. Os olhos de Kyle pareciam lanar centelhas prateadas na direo dos de Piper. Magnetizada, ela viu-o ume-decer os lbios com a ponta da lngua. Uma forte sensao de expectativa tomou conta dela, quando, por um breve momento, achou que fosse beij-la. Prendeu a respirao, enquanto seu corao batia com tanta fora que ela receou que Kyle pudesse ouvir.
Mas, repentinamente, ele desviou o olhar e afastou-se, passando as mos por entre os cabelos, jogando vrios gros de arroz para o cho.
	No seria bom colocar essas flores na gua?  sugeriu ele, num tom de voz quase brusco.  Tem um vaso no armrio da cozinha. Eu... volto num minuto, com licena.
Pegando o palet, ele caminhou pelo hall em direo ao quarto.
Piper permaneceu esttica como um manequim na vitrine de uma loja, esperando que seu corao voltasse ao ritmo normal. Ento respirou fundo, dizendo a si mesma que era uma tola por imaginar que Kyle poderia beij-la.
Engolindo em seco, ela pegou o buque e foi para a cozinha. Encontrou o vaso dentro do armrio, encheu-o de gua e colocou o arranjo de flores, deixando o vaso no centro da mesa.
	Ah, ficou bonito...
Ao som da voz de Kyle, Piper virou-se na direo da porta da cozinha, com um sobressalto.
	Sim...  concordou, num fio de voz.
Ela notou que ele trocara o smoking por uma cala jeans desbotada e uma camiseta branca que realava a musculatura de seu peito.
	Eu... acho que vou fazer um ch para mim, tudo bem?  perguntou ela, hesitante.
Uma expresso de aborrecimento estampou-se no rosto de Kyle.
	Voc no precisa pedir minha permisso  disse ele, secamente.  Eu sei que o nosso casamento ... no  um casamento comum, mas voc  minha esposa e mora aqui, a partir de agora. Por favor, sinta-se  vontade para fazer o que quiser e at mudar alguma coisa que achar que no est boa.
	Obrigada  murmurou ela, desejando ser capaz de dissipar aquela tenso entre eles.   que demora um pouquinho para eu me acostumar.  Ela lhe deu um sorriso provocante.
 Bem, eu vou fazer um ch, voc quer uma xcara?
	Sim, gostaria muito, mas deixe que eu faa o ch  prontificou-se Kyle.  Voc teve um dia longo. Por que no se senta na sala e pe os ps para cima? Eu levarei o ch para voc.
Sem esperar pela resposta de Piper, ele pegou a chaleira em cima do fogo e comeou a ench-la.
Sentindo que seria intil discutir e precisando alargar um pouco o espao entre eles, Piper fez como ele queria. Por sua vontade, preferiria ir para o quarto e vestir algo mais confortvel, mas temia que tal atitude pudesse causar uma m impresso a Kyle.
Poucos minutos depois, ele apareceu carregando uma bandeja, colocou-a sobre a mesinha de centro e estendeu uma xcara de ch para Piper.
	Eu estive pensando sobre o que Kate falou hoje  comeou Kyle.
	O qu?
	Sobre viajar de avio quando voc est num estgio to adiantado da gravidez.
	Eu realmente no havia pensado nisso  respondeu Piper, com sinceridade.
	Talvez fosse bom voc falar com o dr. Adamson  sugeriu Kyle.  Se ele achar que no  aconselhvel voar, cancelaremos as reservas.
	Mas ns temos que ir! Quero dizer...  ela hesitou.
	No se isso contrariar as ordens do mdico  observou Kyle.
	Mas...  ela tentou protestar outra vez.
	Seu bem-estar e o do beb so mais importantes que qualquer outra coisa. Os advogados podem esperar  insistiu Kyle.
	Os Hunter vo pensar que estou me aproveitando disso para adiar o processo.
	Deixe-os pensar o que quiserem. Se o dr. Adamson achar melhor voc no voar, ns no iremos e isso est decidido.
Piper no discutiu mais, surpresa e intimamente contente com a preocupao de Kyle. Ele tinha razo, a gravidez adiantada era um motivo vlido para a prorrogao da audincia. Alm disso, a simples perspectiva de encontrar os pais de Wes a deixava nauseada.
	Eu telefonarei para o advogado amanh  falou finalmente.
	Otimo.
Kyle recostou-se na poltrona e tomou um gole de ch.
	Voc fez muitas viagens desde que saiu de Kincade?  indagou ele, mudando de assunto.  Por que no me conta sobre seu trabalho e dos lugares que conheceu?
Durante a hora seguinte, Kyle ouviu Piper relatar algumas de suas experincias em vrios locais exticos ao redor do mundo, que conhecera em suas viagens a trabalho, fazendo perguntas e ouvindo com interesse as histrias que ela contava.
Era bvio, pela maneira animada como ela falava dos lugares e pessoas que conhecera, que amava seu trabalho e, no pela primeira vez, Kyle imaginou por quanto tempo ela seria feliz numa cidade pacata como Kincade.
Por mais fortes que fossem os laos familiares, ele sabia que aquele esprito aventureiro logo a deixaria inquieta.
O pensamento de Piper indo embora provocou uma pontada no corao de Kyle. Mas ele a ignorou, lembrando a si mesmo mais uma vez que eles eram dois opostos. Ele havia feito uma troca com Piper, e cumpriria sua parte da melhor maneira possvel. S esperava que ela fizesse o mesmo, tornando-se parte da vida de April.
O pensamento de Kyle voltou ao momento, pouco antes, em que ela o ajudara a tirar as abotoaduras. O toque suave dos dedos dela em seu brao havia provocado uma reao instantnea e maravilhosa. Ele procurara o olhar de Piper, curioso para saber se ela percebera a reao de seu corpo.
Foi quando a compulso de tom-la nos braos e beij-la quase o dominara. Ele se sentira tentado, muito tentado, mas sabia que, se a beijasse, no conseguiria mais parar. 
Fora uma sensao de dj vu, pois naquela noite, oito anos atrs, ele tambm se sentira fortemente tentado. Mas sabia, por instinto, que um beijo nunca seria suficiente.
Kyle achava espantoso que, mesmo agora, grvida de oito meses, ela ainda fosse a mulher mais bela e sexy que ele jamais conhecera.
Estou cansada.  melhor eu ir para a cama.  A voz de Piper interrompeu seus pensamentos.  Obrigada pelo ch.
 No h de qu. Boa noite, Piper  respondeu Kyle.
Quando ouviu a porta do quarto de hspedes fechar-se atrs dela, Kyle colocou as xcaras na bandeja e foi para a cozinha. Na semana anterior, ele passara vrias noites limpando e arrumando aquele quarto para Piper. Vera lhe perguntara o que ele estava fazendo e ele dissera que estava arranjando espao para Piper guardar suas coisas.
Ela aceitara a explicao, mas Kyle se perguntava quanto tempo demoraria at que a tia percebesse que ele e Piper no estavam dormindo juntos.
At o nascimento do beb, ainda haveria uma justificativa, mas e depois?	
Elise havia usado a gravidez como desculpa para no dormir com ele. S que no se deitara mais com ele desde o dia em que soubera que estava grvida. Fazia pouco mais de um ano que estavam casados e, embora a gravidez no tivesse sido planejada, Kyle ficara deslumbrado quando Elise lhe contara. Logo, porm, descobrira que ela no compartilhava o mesmo entusiasmo com a ideia de ser me.
Isso acontecera na poca em que Henry se aposentara e se mudara para o Arizona. A carga de trabalho de Kyle aumentara, e ao mesmo tempo ele tinha de lidar com uma esposa infeliz.
Elise havia pedido demisso do emprego de garonete, no por causa da gravidez, mas porque no queria que as pessoas vissem seu corpo perdendo as formas. Durante aqueles meses, haviam se afastado cada vez mais um do outro. Elise se isolara, no permitindo que Kyle compartilhasse aquela experincia com ela. Ele se sentira rejeitado e terrivelmente frustrado.
Ento passara a procurar e ler livros sobre gravidez e parto.
Quando o mdico de Elise sugerira que ela frequentasse um curso pr-natal, Kyle a acompanhara nas duas primeiras aulas. Mas perderam as outras porque Elise entrara em trabalho de parto prematuro. Ele a levara para a maternidade e permanecera ao lado dela, tentando encoraj-la e consol-la  medida que as contraes se tornavam mais fortes e mais longas. Depois do parto, a enfermeira levara April para o berrio, mas no antes de ele ter segurado a filha nos braos por alguns segundos.
Kyle sabia que nunca se esqueceria da sensao indescritvel que o invadira naquele instante, o amor imediato e intenso que sentira por aquela criaturinha que cabia em suas mos.
A perspectiva de ter outra criana na casa o alegrava. No importava que ele no fosse o pai. O importante era que Piper era a me, e ele sabia que amaria o filho dela como se fosse seu.
Mas sabia tambm que precisava comear a se preparar para o dia que em Piper lhe diria que no queria mais aquele casamento de convenincia.
Piper acordou com uma dorzinha na base do ventre. Gemeu baixinho e virou-se na cama, procurando uma posio melhor. No primeiro instante, olhando em volta do quarto, no se lembrou de onde estava. Nada ali era familiar para ela. Ento lembrou-se que estava na casa de Kyle.
Casara-se com ele na vspera, e haviam passado momentos agradveis conversando antes que fosse sozinha para o quarto de hspedes.
Exausta no fim de um longo dia, Piper achara que no teria problemas para dormir, mas acordara no meio da noite com uma dor incmoda, que acreditava ter sido causada pelos canaps de camaro servidos no dia anterior.
Ela fechou os olhos novamente, mas parecia que pequenas agulhas cutucavam incansavelmente suas entranhas. Depois de alguns segundos a dor desapareceu, e Piper esticou o brao para acender o abajur ao lado da cama, que banhou o quarto com uma claridade suave. No tinha a menor ideia de que horas eram.
Empurrando o acolchoado para o lado, ela saiu da cama e se dirigiu para a porta. No havia luz no corredor, mas no estava to escuro que no pudesse enxergar o caminho para o banheiro.
Assim que entrou no banheiro, no entanto, teve de se apoiar na pia, derrubando a saboneteira no cho com um barulho estrondoso no silncio da noite, quando outra pontada, mais forte que a primeira, pareceu apert-la por dentro.
Gemendo, ela levou uma mo  barriga e arregalou os olhos ao sentir um lquido quente correr por suas pernas.
Piper olhou para o cho molhado. Ento lembrou-se que uma amiga, ao lhe contar sobre o nascimento de seu primeiro beb, dissera que a bolsa rompera antes de ela ir para a maternidade.
Estaria acontecendo a mesma coisa com ela? Mas ainda faltava quase um ms para o beb nascer!
Piper ouviu passos no corredor e ento viu Kyle aparecer na porta do banheiro, os cabelos desgrenhados. Ele estava descalo e usava apenas uma cala jeans.
	Piper, o que aconteceu? Ouvi um barulho... Voc est bem?
	Eu acho que a bolsa rompeu...  disse ela apreensiva.  Se for isso... o beb vai nascer... no vai?
Sua voz no passou de um sussurro rouco. O medo tomou conta de Piper, fazendo seu corao acelerar.
Kyle aproximou-se e colocou o brao em volta dela.
	Vou ajudar voc a voltar para a cama  disse gentilmente.
Piper apoiou-se nele e deixou que a conduzisse ao longo do corredor. Mas antes de alcanar a porta do quarto, uma terceira pontada de dor fez com que ela dobrasse os joelhos.
Dessa vez Piper no conseguiu reprimir um grito. A contrao parecia nunca mais acabar e era mais forte que as anteriores, fazendo-a transpirar.
Kyle a suspendeu nos braos e a carregou para o quarto, colocando-a cuidadosamente na cama.
	Quando as contraes comearam?
Piper no respondeu de imediato. A dor era to intensa que ela no conseguia falar, nem mesmo raciocinar. Quando, finalmente, acalmou, ela respirou fundo e conseguiu focar a vista em Kyle.
	Eu acordei sentindo dor... h uns quinze minutos...  Ela lutou para combater o pnico.  Mas pode ser que no seja...
	Pode ter certeza que   afirmou Kyle, com um sorriso.  Voc est em trabalho de parto.
	Mas ainda falta um ms...  Piper sentia dificuldade em encarar a realidade.
	Eu sei, mas no se preocupe. Fique calma. No h porque se afobar  Kyle tranquilizou-a.  Tente relaxar. Eu a levarei para o hospital.
Ele olhou na direo do guarda-roupa.
	 melhor pegar um casaco.
	Est pendurado do lado esquerdo  Piper apontou.
Kyle abriu o guarda-roupa e pegou o grosso casaco de l que ela pendurara num cabide.
	Vamos l  falou, ajudando-a a enfiar o brao na manga.
	Eu estou com medo  choramingou ela, esperando que Kyle no a achasse ridcula.
Kyle sentou-se na cama e colocou os braos em volta dela.
	Piper, tudo vai ficar bem. Ter um beb  um processo natural.
	Mas eu... no sei o que fazer... E se eu no conseguir... Se o meu beb... morrer...  O tom de voz dela beirava a histeria.
	Piper, pare com isso!  ralhou Kyle com firmeza.  Escute uma coisa... No vai acontecer- nada com o seu beb, ouviu bem? Eu no vou deixar que acontea. Certo?
Piper olhou para ele e viu determinao, segurana e autoconfiana no fundo dos olhos cor de chumbo. Mas antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa, uma nova contrao comeou, to violenta que ela afundou a cabea no travesseiro, abafando um grito. Tinha a sensao de que garras de ferro penetravam suas entranhas, apertando-as com fora.
Kyle segurou a mo dela e ela apertou-a entre os dedos.
	Essa foi forte  comentou Kyle logo depois, quando Piper voltou a se sentar e respirou fundo, momentaneamente aliviada, porm ensopada de suor.  Voc no estava sentindo nada ontem  noite, no ?
Ela balanou a cabea.
	Nada. Na verdade, eu estava sentindo um... peso, quando vim me deitar, mas pensei que fosse alguma coisa que eu tivesse comido...
	Bem, so quatro horas da manh. Para as contraes estarem to fortes e com intervalos to pequenos, voc deve ter entrado em trabalho de parto no incio da madrugada.
Diante daquela constatao, o pnico comeou a tomar conta de Piper novamente. Ela apertou a mo de Kyle e gemeu baixinho.
	Est tudo bem, Piper, relaxe. Ser pior para voc e para o beb se ficar estressada  aconselhou, tentando transmitir-lhe segurana.  Vamos fazer uma coisa, em vez de lev-la para o hospital, vou telefonar e pedir que mandem uma ambulncia.
Ele ameaou levantar-se da cama, porm Piper apertou-lhe a mo com mais fora.
	No me deixe aqui sozinha!  gritou ela. Mas logo em seguida, ao perceber a expresso de preocupao e censura no rosto de Kyle, abrandou o tom de voz:  Por favor...
Kyle afastou uma mecha de cabelo mida do rosto dela.
	Piper...  murmurou ele, com ternura porm com firmeza.   natural que esteja assustada...  a primeira vez que voc vai dar  luz, e tenho certeza de que todas as mulheres sentem o que voc est sentindo, nesse momento. Mas pense que voc  saudvel, est tudo bem ccm o seu beb, e o nascimento de uma criana  a coisa mais natural do mundo! Pense, Piper... que daqui a poucas horas voc vai estar com seu bebezinho nos braos...
Piper meneou a cabea em assentimento, apertando os lbios para reprimir as lgrimas que, agora, j no eram s de medo mas tambm de emoo... Uma emoo indescritvel ao imaginar a cena que Kyle descrevera, e tambm por ele ser um homem to bom e sensvel.
	timo  disse ele, inclinando-se para a frente e beijando-a delicadamente nos lbios.
Kyle saiu do quarto e desceu apressado para destrancar a porta da frente da clnica, para que os paramdicos pudessem entrar. Em seguida, foi at a cozinha e tirou o receptor do suporte na parede; porm, ao ouvir o chamado desesperado de Piper, recolocou o fone no gancho e correu escada acima, subindo os degraus de dois em dois.
Ento, ao passar pelo armrio do corredor, num impulso abriu a porta e pegou algumas toalhas.
A expresso aliviada de Piper quando o viu fez com que ele sorrisse.
	Parece que esse beb est com pressa de nascer  brincou ele, colocando as toalhas no p da cama.
	Oh...  Piper gemeu de novo, balanando a cabea de um lado para outro, e em seguida suas feies se contraram de dor.  Oh, no... no!
	Calma...  Kyle afagou-lhe os cabelos enquanto ela se contorcia.  Piper, voc tem que acompanhar a onda de contrao, no lutar contra ela. Inspire e sopre o ar, como um cachorrinho  instruiu ele.  E se voc sentir vontade de fazer fora, tente segurar.
Piper parecia estar em transe. No parecia ouvir o que Kyle dizia, continuava balanando a cabea de um lado para outro e contorcendo o corpo na cama, os olhos arregalados de pavor. Ele segurou-lhe a mo e sacudiu-a.
	Piper! Piper, oua o que estou dizendo  ordenou, autoritrio.  Eu estou aqui com voc e vou ajud-la. Voc confia em mim?
Ento, a contrao perdeu a fora e Piper deixou-se afundar nos travesseiros, exausta. Seu peito arfava com a respirao irregular, e ela fixou em Kyle os olhos vitrificados.
	Sim...  sussurrou num fio de voz.
	timo. Ento, preste ateno e faa o que eu disser. Eu quero que voc respire depressa pela boca. Quando sentir que a contrao est comeando, no se descontrole. Inspire e sopre, como um cachorrinho  repetiu ele.  Assim...
Kyle fez uma demonstrao.
Piper assentiu com a cabea em silncio, olhando-o desamparada.
	Enquanto isso, aproveite para relaxar. Respire fundo, bem calma...  Ele passou novamente a mo nos cabelos de Piper, midos de suor, afastando-os do rosto, enquanto ela fechava os olhos e respirava devagar.  E no se esquea, mesmo que sinta vontade, no empurre.
Piper estava muito cansada para falar, mas procurou a mo de Kyle com a sua e apertou-a em sinal de gratido. Sabia que se ele no estivesse ali, conversando com ela, acalmando-a e orientando-a, ela estaria gritando como uma louca, de dor e pnico.
Agora reconhecia que fora uma tola ao tentar ignorar o momento do parto. Se tivesse se preparado, lido a respeito, frequentado o curso pr-natal, estaria muito mais preparada e bem mais tranquila.
Ento, ao sentir as aterrorizantes ondulaes iniciais de uma nova contrao, ela apertou os lbios para no gritar. Fechou os olhos com fora e respirou conforme Kyle lhe ensinara. A dor no foi menos intensa por causa disso, mas o fato de se concentrar na respirao parecia desviar um pouco sua ateno, e a contrao foi mais suportvel.
	Acho que falta pouco para esse beb nascer  disse Kyle com um sorriso.  Vou colocar algumas toalhas embaixo de voc  avisou.  Dobre os joelhos.
Ele a ajudou a ficar na posio certa.
	Isso... Voc vai sentir vontade de fazer fora, mas quero que segure at eu dizer que pode empurrar, entendeu?
Os quinze minutos seguintes foram de dor, apenas dor. O desejo de expelir era quase insuportvel, mas Piper lutava com todas as foras para controlar o impulso de seu corpo, esperando que Kyle avisasse que era hora.
	Empurre agora!  Ele quase gritou, e no mesmo instante Piper fez fora, cerrando os dentes e apertando os olhos.
	Maravilha! J posso ver a cabea do beb  anunciou ele eufrico.  timo! Segure... Respire fundo... Quando vier a prxima contrao, empurre com toda fora que voc puder.
Piper gemeu alto e, cerrando os dentes, empurrou novamente.
	Voc conseguiu, Piper! Voc conseguiu!  A voz excitada de Kyle envolveu-a na escurido, e ela abriu os olhos para ver a face sorridente dele.
De repente, um choro agudo de beb ecoou dentro do quarto.
	Parabns, Piper! Voc ganhou um menino!
Ela deixou a cabea afundar no travesseiro e gemeu baixinho, exausta, as lgrimas correndo pelo rosto.
	Ele est bem?  perguntou, quase sem voz.
	Ele  perfeito!  exclamou Kyle.  Aqui est seu filho, Piper...
Embora suas plpebras parecessem pesar uma tonelada, ela abriu os olhos para ver Kyle colocando o beb embrulhado numa toalha em seus braos. Olhou para o rostinho vermelho e minsculo, a pele franzida, e foi instantaneamente invadida por um sentimento de amor intenso, algo que nunca sentira antes.
Ento olhou para Kyle e sentiu o corao expandir-se. Ela no conseguiria ter tido aquele beb sem a ajuda dele e sabia que nunca esqueceria aquele dia que estava prestes a raiar, o dia em que ela e Kyle haviam participado de um milagre.
	Kyle, eu...  comeou ela, mas ele interrompeu-a.
	 melhor chamar a ambulncia, agora  sugeriu Kyle.
	Eu pensei que voc j tivesse feito isso.
	No tive tempo. Destranquei a porta para que eles pudessem entrar, mas quando fui telefonar voc me chamou, e as contraes j estavam muito seguidas.
Piper ensaiou um sorriso fraco.
	Parabns, Piper... Voc tem um filho lindo, agora, para mostrar a todo mundo o resultado de sua coragem.
Piper olhou para o pequeno milagre em seus braos.
	Ele  lindo, mesmo, no ?  murmurou, sorridente.
Kyle concordou com um movimento de cabea.
	Bem, vou telefonar  avisou ele, saindo do quarto em seguida, mas no antes de Piper captar uma expresso de melancolia nas profundezas dos olhos cinzentos.

CAPITULO IX

Piper bocejou e abriu os olhos lentamente. Olhou para o relgio na parede do quarto do hospital e ficou surpresa ao descobrir que j era quase meio-dia. Dormira mais de cinco horas.
Sentia o corpo pesado, dolorido, quase como se tivesse levado uma surra. Ento sorriu, lembrando-se do momento incrvel em que Kyle colocara o filho em seus braos.
Seu pensamento voltou para aquela madrugada, quando as contraes haviam comeado. No sabia o que teria acontecido se Kyle no estivesse com ela naquela hora mais difcil de sua vida.
Quando os paramdicos chegaram, imediatamente tomaram as providncias, examinando primeiro o beb, depois ela, antes de preparar ambos para o transporte at o hospital.
O beb, prematuro, fora levado para o berrio e colocado numa incubadora. O pediatra de planto assegurara que ele estava bem e explicara que, por ter nascido trs semanas antes da data prevista, pesando apenas dois quilos e meio, ficaria em observao no berrio por alguns dias, apenas por precauo.
Esperando ver Kyle outra vez para agradecer-lhe por tudo que fizera, Piper tentara permanecer acordada. Mas a exausto a dominara e ela adormecera.
Ansiosa agora para ver o filho, ela afastou as cobertas para o lado e sentou-se na cama, procurando o banquinho para descer. Ento a porta do quarto se abriu e Kyle apareceu, recm-sado do banho e especialmente bonito, de cala e jaqueta jeans e camiseta plo branca.
Ele a cumprimentou com um sorriso.
	J est indo embora?  brincou.  No a esto tratando bem?
A voz grave e o sorriso encantador de Kyle fizeram com que o corao dela disparasse. Na noite anterior eles haviam compartilhado uma experincia incrvel, o nascimento de seu filho. Piper no se lembrava de ter se sentido to ligada a outro ser humano em toda sua vida. Sabia que um estreito lao de unio havia se formado entre eles e, no pela primeira vez, admirou aquele homem.
	Eu ia at o berrio para ver o beb  justificou-se.
	Ele est timo, acabo de vir de l  garantiu ele.  A enfermeira disse que ele est com um pouco de ictercia, mas isso  normal.
	Assim mesmo quero v-lo  insistiu Piper.  Oh... voc telefonou para os meus pais?
	Sim  respondeu Kyle.  Sua me ficou surpresa. Pediu para avisar que viro v-la daqui a pouco. Pensei at que j estivessem aqui.
	Ainda no  disse Piper. Ela deu um passo vacilante para a frente.
Kyle rapidamente moveu-se para seu lado, pondo os braos em volta dela, oferecendo-lhe apoio.
	V com calma! Voc acabou de ter um beb, lembra-se?
 disse ele de um modo brincalho.  Alm do mais, precisa calar chinelos e vestir um penhoar para sair do quarto. Est tudo aqui nesta sacola, e tambm sua escova de dentes, de cabelo e outras coisas que achei que poderia precisar.
Kyle colocou uma pequena sacola sobre a cama. Sensibilizada pela gentileza, Piper murmurou um agradecimento. Ele estava a poucos metros de distncia e a proximidade provocou um efeito estranho sobre ela. A vontade de inclinar-se para ele, de sentir aqueles braos fortes em volta de si, era to forte que pensou que no conseguiria resistir.
	Onde est April?  perguntou ela, abrindo o zper da sacola.
	Est na casa de seu irmo, com Sabrina, esqueceu?
	Oh...  mesmo, eu tinha me esquecido  replicou Piper, tirando o penhoar da sacola.
Antes que ela pudesse dizer algo mais, a porta se abriu e a famlia de Piper entrou, carregando flores, bales e vrios bichinhos de pelcia.
Piper foi imediatamente envolvida por uma srie de abraos. A me, o pai, as duas cunhadas, a sobrinha e a enteada revezavam-se, congratulando-a.
	Spencer e Marsh mandaram beijos  disse Kate.  Marsh tinha uma reunio importante esta manh.
	Spencer vir mais tarde  acrescentou Maura.
Piper cuidadosamente sentou-se na cama e comeou a acariciar o grande urso de pelcia que o pai havia colocado em suas mos. Ento percebeu que Kyle tinha se dirigido para a janela.
	Estamos todos to orgulhosos de voc  declarou a me com os olhos brilhando de lgrimas.
	Kyle merece um prmio  disse Piper.  Se ele no estivesse comigo, no sei o que seria.
April correu para o pai, que a levantou nos braos.
	Papai, eu quero ver o beb! Posso ir ver meu irmozinho agora? Por que todos ns no vamos v-lo?  insistiu ela.
	Qual  o nome do beb?  perguntou Sabrina, j no corredor.
Piper franziu o cenho. No pensara a respeito do nome do beb.
	Eu no sei. Eu... ns...  Ela parou e deu uma olhada para Kyle.  Ns no decidimos o nome ainda.
Meia hora depois, a famlia toda tinha sado, prometendo voltar mais tarde. Ela estava sozinha com Kyle no berrio. Permaneceu olhando fixamente para o filho, que estava ligado a diversos monitores.
Piper imaginava se Kyle estava pensando no nascimento de April, lembrando-se que a menina lhe contara que tambm havia nascido prematura. Talvez ele estivesse pensando em Elise, desejando que ela estivesse ali e que o beb fosse deles. A ponta de cime que tal pensamento provocou surpreendeu-a.
	Ele  to perfeito, to bonito  comentou Kyle com a voz carregada de emoo. Ento voltou-se para ela:  Bem, eu preciso ir. E voc deveria voltar para cama e descansar.
	Eu estou tima  exclamou Piper, e sorriu quando viu a expresso ctica nos olhos dele.  Bem, ainda sinto um pouco de dor  emendou, quando comearam a caminhar pelo corredor.
	O dr. Adamson veio ver voc?  perguntou Kyle.
	No. Pelo menos, eu acho que no  respondeu ela.  Eu dormi a maior parte da manh. Por que pergunta?
	Eu estava imaginando quanto tempo o beb ter que ficar na incubadora. Quanto tempo levar at que voc possa lev-lo para casa. April ficou uma semana no hospital, quando nasceu.
Mais uma vez, Piper surpreendeu-se com a generosidade daquele homem, que parecia vido para desempenhar o papel de pai do filho de outro homem.
	Vou perguntar ao pediatra  prometeu ela, quando retornaram ao quarto. Sentindo-se repentinamente cansada, Piper deitou-se.
	Voc precisa de alguma coisa?  perguntou Kyle.
	Eu acho que no... Espere! H algo que voc pode fazer por mim.  A ideia lhe viera  mente quando o vira olhando para o beb.
	Diga  pediu Kyle.
	Eu quero que voc escolha um nome para o beb  disse ela e viu a surpresa que reluziu por um momento nos olhos dele.
	Voc est me pedindo para escolher um nome para o seu filho?  Ele parecia perplexo.
	 mais que justo, voc no acha?  retrucou Piper.  Se voc no estivesse comigo quando ele nasceu, eu teria entrado em pnico total, e isso poderia ter causado uma poro de problemas, tanto para mim quanto para ele.
	Voc se subestima  disse Kyle.  Fez tudo direitinho.
	Graas a voc.  Piper sorriu, relembrando muito bem quanto medo sentira.
	Voc tem certeza?  interrogou ele.
	Certeza absoluta.
Kyle ficou calado por diversos minutos. Novamente Piper admitiu para si mesma que nunca conhecera um homem como ele. Quantos homens poriam de lado a prpria felicidade e quantos se casariam com uma mulher que no amavam apenas para ajud-la a ter a custdia do filho?
Sabia que se a situao fosse inversa, se o filho fosse de Kyle e ela tivesse feito aquela proposta a Wes, ele jamais teria concordado.
	No precisa decidir agora. Pode pensar  disse Piper sorrindo.
	O que acha de Timothy?  perguntou ele.
	Timothy  repetiu Piper, gostando imediatamente do nome.  Tem um significado especial para voc?
	Era o nome do meu pai  disse Kyle.  Ele morreu quando eu tinha seis anos.
Piper percebeu um resqucio de dor na voz dele e teve vontade de estender a mo e acariciar-lhe o rosto.
	Meus pais morreram juntos, em um desastre de trem  continuou ele.  Estavam indo para um casamento. Eu fiquei em casa com a bab.
Kyle fez uma pausa antes de prosseguir.
	Antes de sair, minha me me contou que eu ia ganhar um irmo, ou irm.
	Oh... Ela estava grvida?
Kyle assentiu com ujn movimento de cabea.
	Voc preferia menino ou menina?  perguntou Piper, carinhosamente.
	Eu sempre quis ter um irmo. Nunca gostei muito de ser filho nico  confessou ele.  Tenho inveja de voc por ter crescido com dois irmos para brincar. 
	E para brigar  acrescentou Piper, tentando aliviar o clima tenso.
Embora fosse apenas uma suposio, ela tinha quase certeza de que Kyle tambm queria um irmo ou irm para April. Seria aquela a razo de ter concordado em se casar com ela?
	Se voc no gosta de Timothy, eu...
	Eu adoro Timothy!  exclamou Piper, captando o brilho de contentamento nos olhos dele.  Que tal Timothy Elliot Diamond Masters?  sugeriu ela, acrescentando o nome de seu pai e os sobrenomes de ambos.
Kyle sorriu.
	Parece fantstico para mim, mas voc est certa de que no quer dar ao beb o nome do pai biolgico?
Piper balanou a cabea.
	Wes no queria o filho. Teve at mesmo o atrevimento de me perguntar se eu tinha certeza que ele era o pai  acrescentou ela, com um vestgio de amargura na voz.  Os pais dele me fizeram a mesma pergunta quando eu lhes contei que estava grvida. Esta  a razo pela qual  to estranho que estejam entrando com um processo de custdia.
	Parece-me mais uma demonstrao de poder.  O tom de voz de Kyle era firme.  J que estamos falando no assunto  continuou ele , a viagem para Nova York na quarta-feira est fora de cogitao agora. Vou telefonar para o advogado e explicar que voc teve o beb.
	Voc j fez tanto por mim, Kyle, que eu nem sei como...
	Esquea isso  assegurou-lhe ele.  E melhor eu ir agora. Tenho alguns telefonemas para dar esta tarde.
 Oh... a clnica! Como voc vai fazer?
	No se preocupe com isso  apressou-se ele a dizer.  Com April na casa de Kate, Vera pode me dar uma ajuda na clnica, por alguns dias. Vou colocar um anncio no jornal. Daremos um jeito at que eu encontre uma substituta.
Ele sorriu e acrescentou:
	Obrigado, Piper.
	Pelo qu?  perguntou ela surpresa.
	Por me pedir para escolher o nome do seu filho.
Piper sentiu um n na garganta.
	Voc vai ser o pai, pelo menos at...
O sorriso de Kyle desapareceu.
	At esse casamento de convenincia ir to longe quanto necessrio.  Ele terminou a frase por ela e em seguida foi embora.
Aps a sada de Kyle, o dr. Adamson apareceu para uma visita. Informou que o beb estava indo muito bem, mas que queria conserv-lo no hospital at que a ictercia desaparecesse e ele comeasse a ganhar peso.
Quanto a Piper, ele lhe assegurou que estava saudvel e que no havia razo para permanecer no hospital. Ento a aconselhou a falar com as enfermeiras do berrio e estabelecer um esquema para a amamentao do beb.
Depois que o dr. Adamson saiu, Piper cochilou um pouco e mais tarde voltou ao berrio. As enfermeiras incentivaram-na a oferecer o peito ao beb, como suplemento da mamadeira.
Piper olhou para o filho adormecido e seus olhos se encheram de lgrimas.
	Bem, rapazinho, posso lhe dizer que seu nome  Timothy Elliot Diamond Masters. O que voc acha disso? Eu acredito que a pior parte j passou  continuou ela.  Mas tenho um pressentimento de que  apenas o comeo. Eu nunca fui me antes, no sei nada sobre isso, estou desnorteada, sei que vou errar muito, mas quero que voc saiba que eu te amo com todo o meu corao e que tentarei fazer voc muito feliz.
	Bem, eu diria que voc est no caminho certo.  A voz de Kyle pegou-a de surpresa, e ela virou-se para se deparar com ele a uma curta distncia. Ouvira a porta do berrio se abrir, mas pensara que fosse uma das enfermeiras. Piper sentiu o rosto corar.
	 uma incrvel responsabilidade e no estou certa de que vou dar conta  disse ela, parecendo um pouco na defensiva.
	O que faz voc pensar isso?  perguntou Kyle em tom gentil.
Ela deu de ombros.
	Talvez porque eu sempre tenha sido to dedicada  minha carreira. Casamento e filhos no estavam na minha lista de prioridades. Quero dizer, achei que Wes e eu nos casaramos um dia, mas nunca pensei em ter um filho. No tenho experincia com crianas. J segurei os bebs de minhas amigas no colo, mas por pouco tempo. Eles so to pequenos e indefesos que sempre me senti meio desajeitada para lidar com eles. Ento presumi que no nasci com um instinto maternal muito forte.
Kyle aproximou-se dela.
	Pois eu acho que voc definitivamente acaba de adquirir sua parte de instinto maternal. E Timothy logo estar completamente recuperado  garantiu ele com um sorriso.  E eu estarei aqui para ajudar, pelo menos at que os Hunter estejam fora do caminho e voc se sinta segura o suficiente para prosseguir por conta prpria.
Piper ficou em silncio por um longo momento. O pensamento de Kyle no mais fazer parte de sua vida e da de Timothy evocou uma estranha sensao de vazio em seu corao.
Durante as ltimas semanas, ele tinha provado ser o homem mais generoso, compreensivo, leal, paciente e terno que ela j conhecera. Piper no podia imaginar a vida sem Kyle.
Precisava dele. Assim como Timothy precisaria. Piper tinha impresso de que ele era um pai perfeito, o pai que toda criana merecia ter.
Talvez a razo de um casamento e uma famlia terem sempre ficado em segundo plano na sua vida fosse porque no encontrara o homem certo, o homem com o qual gostaria de viver para o resto da vida.
De repente, Piper tomou conscincia de que Kyle era esse homem. No o queria apenas como um pai temporrio para Timothy, ou um marido apenas no papel. Desejava-o de corpo e alma.
Foi ento que Piper se deu conta de que estava apaixonada por Kyle Masters.

CAPTULO X

Piper estava sentada na cama esperando por Kyle. As enfermeiras j lhe haviam levado a bandeja com o almoo, mas as travessas brilhantes de ao inoxidvel permaneciam intactas. Ela passara toda a manh nervosa e preocupada, imaginando como teria sido a conversa de Kyle com o advogado dos Hunter.
Uma leve batida na porta atraiu seu olhar ansioso, mas era sua me que acabara de chegar.
	Que carinha  essa?  perguntou Nora, entrando e fechando a porta, antes de se aproximar da cama e dar um beijo na filha.
	No  nada... Estou cansada de ficar aqui, queria que Kyle chegasse logo para me levar para casa.
	Hoje? Mas voc teve o beb ontem!  Nora arqueou as sobrancelhas surpresa.  Ele tambm vai embora hoje?
Piper balanou a cabea.
	Timothy vai ter que ficar  contou ela.  Ele est timo, mas o pediatra e o dr. Adamson querem que ele fique aqui at que a ictercia esteja controlada e tambm para ganhar mais peso.
	Timothy... E assim que ele vai se chamar?
	Timothy Elliot Diamond Masters  respondeu Piper, com orgulho.
	Querida, isso  maravilhoso!  exclamou a me com excitao.  Seu pai ficar emocionado. Quando voc disse que Kyle vir busc-la?
	A clnica fecha ao meio-dia. Ele prometeu que viria me pegar o mais rpido possvel.
	Oh... por falar na clnica  lembrou Nora , eu encontrei Harriet Bayswater ontem. Ela me disse que a sobrinha, Francesca, j est de volta da viagem de seis meses que fez pela Europa. Voc se lembra de Francesca Freeman? Ela estudava na escola, estava uns dois ou trs anos atrs de voc.
Piper franziu a testa.
	Francesca... acho que no... Espere, deve ser Frankie! Ningum a chamava de Francesca na escola, s de Frankie.
Nora sorriu.
	Bem, Frankie est de volta e procurando um emprego.
	Ela seria ideal para trabalhar na clnica. Obrigada, mame, essa  uma tima notcia. Vou telefonar para ela e perguntar se est interessada  disse Piper.  Suponho que esteja hospedada na casa de Harriet.
	Sim  confirmou Nora.
A porta atrs delas se abriu.
	Ol... Desculpe-me, estou atrasado.  Kyle entrou, carregando uma sacola de couro.  Foi uma manh muito movimentada na clnica.  Ele foi at a cama e, para espanto de Piper, inclinou-se e lhe deu um beijo que foi to eletrizante quanto breve.
Piper olhou de soslaio para a me e de volta para ele, que j se virara para colocar a sacola sobre uma cadeira. Claro que aquele beijo no significava nada, fora apenas para manter as aparncias perante sua me, mas o corao dela parecia querer saltar de dentro do peito.
: Bem, eu j vou indo  anunciou Nora Diamond.  Mas antes passarei no berrio para dar mais uma olhada no meu netinho, Timothy Elliot.
	A senhora gostou do nome?  perguntou Kyle.
	Muito  respondeu Nora.  Oh, eu falei com Kate esta manh  ela acrescentou.  April est se divertindo muito l. Tem ajudado a cuidar do beb, e est aprendendo a lidar com um recm-nascido.
Kyle sorriu.
	Eu falei com ela hoje cedo  contou ele.  Aparentemente, Kate est lhe ensinando como trocar fraldas.
Nora riu.
	 maravilhoso que ela esteja to animada com o irmozinho. Voc a criou muito bem, Kyle, parabns.
	Obrigado  respondeu ele.
	E Timothy  uma criana de sorte por t-lo como pai  acrescentou Nora.  Bem, preciso ir. Por favor, me telefone se precisar de alguma coisa, querida.
	Obrigada, mame, eu farei isso  disse Piper, notando um leve rubor no rosto de Kyle, sem dvida em reao ao elogio feito por sua me.
	Eu trouxe as roupas que voc pediu  declarou Kyle to logo Nora Diamond saiu.
	Obrigada. Ah... o advogado... voc telefonou para ele?  perguntou, sem conseguir esperar mais um segundo para saber.
	Sim. Falei com o dr. Regis Bedford.
	E?  Piper no disfarava a ansiedade na voz.
	Eu disse a ele que voc teve o beb e que, portanto, no poderia viajar. Ele se cmprometeu a falar com os Hunter imediatamente para explicar o que aconteceu e me ligar em seguida.
	E ele ligou?
Kyle assentiu com a cabea.
	Sim, depois de quinze minutos. Eu fiquei com a impresso de que ele achou que eu era seu advogado.
Piper arqueou as sobrancelhas.
	Voc no disse a ele que nos casamos?
	Achei melhor reservar essa surpresa para mais tarde  replicou Kyle.
	O que ele falou?
	Que j que voc no pode viajar, os Hunter viro.
	Eles viro para Kincade?  Piper se retesou, num princpio de pnico.
	No  disse Kyle.  A reunio ser em So Francisco.
	Eu no quero me encontrar com eles.
Piper sabia que estava sendo irracional, mas o medo superava o bom senso.
	Eu sei  disse Kyle, compreensivo.  Mas acho que seria melhor voc ir para So Francisco. Se voc no for, eles certamente aparecero por aqui.
	Voc tem razo  concordou Piper com um tom de voz resignado.  Eu no estava raciocinando direito.
	Bedford me contou que eles tm uma associao com uma  firma de advocacia em So Francisco, a Johnson e Richards  continuou Kyle.  O escritrio fica no centro da cidade.
	Quando essa reunio vai acontecer?  perguntou Piper.
	Quarta-feira, ao meio-dia.
	Voc vai comigo?  pediu Piper inquieta.
	Claro que sim  prometeu Kyle.
	E a clnica?
	No h problema. Eu j combinei com Jeff Chalmers, ele vai me substituir. Ele  o veterinrio de Hillcroft.
Mas Piper ainda estava agitada, sentindo que o pnico ameaava domin-la.
	E se eles perceberem que o nosso casamento  uma farsa, Kyle?  perguntou ela, lanando um olhar desesperado para ele.  Eu no posso perder meu filho, no posso!
Kyle deu um passo  frente e segurou-lhe as mos.
	Calma, Piper. Voc no vai perd-lo. Eu no vou deixar. E no h nenhuma razo para eles suspeitarem de alguma coisa. Estamos casados e ponto final.
Piper ouviu a promessa na voz de Kyle e teve de lutar contra a sbita vontade de encostar a cabea no ombro dele. Uma lgrima furtiva correu por seu rosto, lentamente, at o queixo.
	No chore, Piper  disse ele com ternura, enxugando a lgrima com o polegar.
Ao sentir aquele contato, o pulso de Piper acelerou. Num gesto instintivo, ela segurou a mo dele contra seu rosto e fechou os olhos.
	Kyle...
A voz dela era como um pedido, um pedido que ele no podia ignorar. Aproximando-se, pousou os lbios sobre os dela num beijo que fez seu corao disparar.
Um desejo avassalador tomou conta de Kyle, quase fazendo-o cambalear. Piper abraou-o com fora, correspondendo ao beijo com avidez. Naquele instante, Kyle percebeu que, se ele quisesse, ela se entregaria.
E ele a queria, ah, como a queria! Ali mesmo, naquele leito de hospital, naquele exato momento! Seu corpo inteiro ansiava pela promessa que podia provar nos lbios de Piper, mas sabia que ela estava emocionalmente abalada, fragili-zada pelo parto e perturbada com a possibilidade de perder o filho. No podia tirar proveito de sua vulnerabilidade. Ela quisera casar-se com ele para garantir a custdia do filho; em circunstncias normais, Kyle duvidava que ela sequer olhasse para ele.
Haviam feito um acordo, nada mais que isso, e uma vez que tudo ficasse solucionado, ela certamente se sentiria grata, mas, certamente tambm, sugeriria o divrcio. Seria bom ter isso bem claro em sua mente.
Kyle interrompeu lentamente o beijo e se afastou. Por um momento, ficaram se ornando, tentando recuperar o flego.
	Desculpe-me, Piper  murmurou ele.  Isso no deveria ter acontecido. Acho que estamos um pouco... estressados.
	Acho que sim  concordou ela, fazendo um esforo para no demonstrar no tom de voz como aquele beijo a afetara. Nunca sentira uma emoo to forte em toda sua vida. Por um momento, enquanto Kyle a beijava, ela imaginara que ele estivesse sentindo a mesma coisa, mas sabia que estava querendo se enganar. Ele estava simplesmente lhe oferecendo conforto, nada alm disso.
	Acho que vou dar uma olhada no berrio, enquanto voc troca de roupa  anunciou Kyle, dirigindo-se para a porta.
	Boa ideia  respondeu ela, fingindo que estava tudo bem.
Quando a porta se fechou atrs dele, Piper teve vontade de se jogar na cama e comear a chorar, mas se recusou a entregar-se  autopiedade. Pegando a sacola que ele trouxera com as roupas, dirigiu-se ao banheiro.
	Voc no contou a seus pais o motivo de nossa ida a So Francisco, contou?  perguntou Kyle quando entraram na via expressa.
	Eu disse a eles que ns amos fazer compras, que precisvamos de moblia para o quarto do beb.
	Sei  disse Kyle.  Ento seria melhor no chegarmos em casa de mos vazias.
Piper ficou calada. No estava nem um pouco ansiosa para enfrentar os Hunter e seus advogados. O fato de Kyle estar ao seu lado ajudava-a a se sentir mais animada, mas o medo de que os Hunter ganhassem a causa ameaava-a como uma espada sobre sua cabea.
Querendo passar uma imagem de autoconfiana, Piper escolhera cuidadosamente a roupa que iria usar naquela manh. Seu corpo ainda no voltara ao normal, e ela tivera de descartar vrios trajes que separara na noite anterior.
No final, optara por uma cala branca com elstico na cintura e um camiso azul-marinho e branco que combinava com o suter tambm azul. Ficara contente com o resultado, achando-se feminina e sofisticada.
Ela explicara s enfermeiras que no poderia ir ao hospital naquele dia para amamentar Timothy, e elas lhe asseguraram que ele ficaria bem, alimentado com a mamadeira que lhe ofereciam no berrio.
Preocupada com aquele encontro indesejvel, Piper no dormira bem  noite. Para piorar seu estado de esprito, havia a sensao de que Kyle estava fazendo questo de manter distncia. Desde que a beijara no hospital, parecia pensativo, ausente, inacessvel.
	Chegamos  avisou Kyle, estacionando no muito longe
do escritrio de advocacia Johnson e Richards.
Piper, que cochilara durante a maior parte da viagem, acordou e disse:
	Desculpe, no fui muito boa companhia para voc.
	Tudo bem  replicou Kyle.  A viagem foi curta. Na verdade, estamos um pouco adiantados  continuou ele.  Gostaria de comer alguma coisa? No tomou o caf da manh hoje.
	No, obrigada  disse ela, segurando a mo de Kyle para que ele a ajudasse a sair do carro.  No estou com fome.
Na verdade, ela se sentia fraca, porm sem apetite. S de pensar em comida sentia o estmago revirar.
	Vamos ver se conseguimos terminar tudo isso de uma vez.
	Piper...
Ela olhou para Kyle.
	Deixe que eu falo com eles, est bem? Apenas confie em mim.
Ela engoliu em seco, sentindo a emoo tomar conta de seu ser. Aquela era a segunda vez que Kyle lhe pedia para confiar nele. A primeira vez fora na noite em que Timothy nascera.
E ela confiara... e tudo acabara bem.
	Est bem  concordou ela.
	Sra. Diamond?  perguntou a mulher na recepo quando eles entraram.
	Sim  respondeu Kyle antes que Piper pudesse abrir a boca.
	Por favor, siga-mp, eles esto esperando pela senhora.
Piper lanou a Kyle um olhar apreensivo enquanto seguiam a recepcionista ao longo do corredor acarpetado. Ela achava que ele poderia ter se vestido de maneira um pouco mais formal para o encontro com os Hunter e seu poderoso advogado, mas Kyle usava o traje habitual, cala e jaqueta jeans e camiseta, desta vez azul-marinho.
A mulher parou em frente a uma porta de madeira trabalhada no final do corredor e bateu. Em seguida, sem esperar por resposta, abriu-a e entrou.
	A sra. Diamond e seu advogado esto aqui, sr. Johnson.
Ela permaneceu ao lado da porta para permitir que eles entrassem. Um homem na faixa de quarenta anos, com uma aparncia impecvel, levantou-se da cadeira atrs da enorme escrivaninha de carvalho. Ao lado, sentado em um confortvel sof de couro, estava um casal muito distinto, que Piper imediatamente reconheceu como os pais de Wes, Marguerite e Walker Hunter.
	Voc trouxe o beb?,  perguntou Marguerite Hunter abruptamente.
	No  respondeu Piper e lanou um olhar preocupado para Kyle.
O marido de Marguerite Hunter colocou a mo no brao da esposa e a olhou com ar de reprovao. Apertando os lbios, a mulher relutantemente voltou a sentar-se no sof.
	Timothy nasceu prematuro  explicou Kyle.  Ele est na unidade de cuidados especiais, no berrio da maternidade de Kincade.
	O senhor ...  Walker Hunter olhou para Kyle com desdm, esperando que ele se apresentasse.
	Kyle Masters.
	E o advogado da sra. Diamond, suponho  falou o homem em p atrs da escrivaninha.
Kyle voltou-se para o advogado e balanou a cabea.
	No, senhor, sou marido dela.
Diante daquela declarao, Piper notou, com uma ponta de satisfao, a reao chocada dos trs.
	Marido?  repetiu Marguerite, franzindo a testa.  No acredito nisso!  disse, com o rosto vermelho.
	Nos casamos no ltimo sbado informou Kyle.
	Nas atuais circunstncias, isso foi bastante conveniente  comentou Walker Hunter, com frieza.
	Vamos conversar com calma  interveio o dr. Johnson em tom autoritrio.  Por favor, sentem-se.
Ele indicou duas cadeiras em frente  mesa. Kyle ajudou Piper a sentar-se em uma das cadeiras e sentou-se a seu lado, sem soltar-lhe a mo.
	Sra. Diamond...  comeou o dr.Johnson.
	Masters  corrigiu Kyle.
	Oh, sim, claro... Desculpe-me.  Ele deu um sorriso embaraado.  Sra. Masters, para irmos diretamente ao assunto em questo, meus clientes julgam que tm um forte motivo para requerer a custdia do neto. Mas antes de prosseguir com a reivindicao, querem estabelecer, definitivamente, que o beb que a senhora est gestando ... desculpe-me, o beb que nasceu  corrigiu ele ,  de fato o neto biolgico deles. Portanto, requisitamos uma amostra de sangue a ser tirada do beb e mandada para exame a fim de fazer um teste de paternidade.
	De maneira nenhuma!  declarou Kyle com firmeza, espantando a todos, inclusive Piper.
	Como disse, sr. Masters?  perguntou o advogado, obviamente intrigado.
	Eu disse que de maneira nenhuma  Kyle repetiu.  Os senhores podem esquecer isso. Meu filho no ser submetido a teste algum.
	Seu filho?  perguntou Walker Hunter, inclinando-se para a frente, fuzilando Kyle com os olhos.
	Piper e eu somos casados. Somos uma famlia agora e Timothy  nosso filho. Se eu sou ou no o pai biolgico  um simples detalhe  declarou Kyle calmamente, sentindo que, para os Hunter, era o nico detalhe que importava.
	Quanta nobreza!  comentou Marguerite Hunter num tom de voz carregado de sarcasmo.  S que eu no aceito isso, de forma alguma. Alis, para mim, tem alguma coisa errada a.	-
	No sei o que a senhora quer dizer com isso  retrucou Kyle, mantendo a calma, esperando que Piper no interferisse.
	Pois eu acho que voc sabe muito bem  revidou Marguerite, com expresso antiptica.  E acho que tambm sei por que voc no quer que seja feito o teste de paternidade. No quer que ns descubramos que Wesley no  o pai.
	Eu diria que isso  muita prepotncia de sua parte  replicou Kyle, sem se alterar.
	Que outra razo haveria para se opor ao exame?  de safiou Marguerite.
	A simples razo de que Piper est dizendo a verdade  respondeu Kyle, encarando a mulher, o rosto muito srio.
	E como vamos saber se  verdade ou no?  insistiu ela.
	Por que ela mentiria?
	E por que no?  interveio Walker Hunter.  Wesley era nosso nico filho. Eu diria que ela tem tudo a ganhar e nada a perder.
	Sr. Hunter!  exclamou Piper indignada.  Isso ...  repugnante!  concluiu com voz trmula.
Marguerite Hunter ps-se de p e deu um passo na direo dela, furiosa.
	Voc achou que poderia alegar que o filho  de Wesley s para ficar com a herana!
	No  verdade!  protestou Piper, inconformada.
	Eu no sei o que meu filho viu em voc  continuou Marguerite Hunter com expresso de dio.  Mas pensar que voc  capaz de acus-lo de ser o pai do seu filho, quando  bvio que voc dorme com todo mundo que...
	Sra. Hunter  advertiu o advogado em tom de voz baixo. 
	Sim, dr. Johnson,  bom avisar sua cliente que tenha cuidado com o que fala de minha esposa , alertou Kyle.
Piper continuou emudecida na cadeira, abalada demais para dizer alguma coisa.
	Esta reunio acabou. Venha, Marg. Vamos embora daqui 	decidiu Walker Hunter, caminhando em direo  porta.
	Isso significa que esto desistindo da ao de custdia? 	perguntou Kyle.
Walker Hunter parou e voltou-se para encarar Kyle, com indisfarvel desprezo.
	Exatamente. Embora eu tenha boas razes para processar voc...
	Que razes?  exigiu Kyle, os olhos frios como ao.
Walker no disse nada. Segurou a porta aberta para que a esposa passasse e a seguiu para fora da sala.
Piper soltou a respirao presa na garganta. Sentiu como se tivesse tirado um peso enorme de cima dos ombros.
Kyle levantou-se.
	Obrigado pela ateno, dr. Johnson. Posso considerar este assunto encerrado?
	Eu duvido que vocs tenham notcias deles novamente 	respondeu o advogado.
Kyle voltou-se para Piper:
	Vamos, ento?
Do lado de fora, na rua, Piper olhou em volta  procura dos Hunter, ainda no convencida de que estava tudo terminado. Mas, para seu alvio, no havia sinal deles.
	No sei voc, mas eu estou com fome  comentou Kyle. 	Vi um restaurante, logo depois da esquina, quando ns chegamos. Que tal? Me acompanha num almoo comemorativo?
	Sim, oh, sim, Kyle!  respondeu Piper, subitamente sentindo-se faminta.
	Como voc conseguiu?  quis saber Piper depois que se sentaram a uma mesa perto da janela.
	Consegui o qu?  perguntou Kyle, enquanto folheava o cardpio.
	Que eles pensassem que Wesley no era o pai de Timothy.
	Eles sabem que , Piper. Mas querem acreditar que no . Eu simplesmente dei a eles a desculpa que procuravam.
Piper olhou para fora, pensativa. Kyle tinha razo. Os Hunter haviam aceitado avidamente a possibilidade de outro homem ser o pai do beb. Queriam fechar os olhos para a verdade, e Kyle lhes proporcionara uma rota de fuga.
	Por que voc disse a eles que ns no concordaramos em fazer o teste de paternidade?  perguntou ela.
	O fato de pedirem o teste  uma prova de que duvidam de sua palavra  disse Kyle.
	Eu no posso acreditar que esse pesadelo tenha acabado 	exclamou Piper.  Foi fcil demais para ser verdade.
	Piper! Quem  vivo sempre aparece!  voc, sim!
O som inesperado daquela voz os assustou e Piper virou-se para a mulher de cabelos castanhos, elegantemente vestida em um conjunto verde-musgo e casaco combinando.
	No me diga que no se lembra de mim!  exclamou a recm-chegada.
	Celeste!  claro que me lembro  disse Piper, com um sorriso.  Quem poderia esquecer de Celeste Robinette, editora-chefe da Mstica, uma das revistas mais prestigiadas do pas?
Celeste sorriu.
	Apresente-me ao seu belo companheiro de almoo  ordenou ela, dirigindo a Kyle um sorriso superficial.
	Este  Kyle Masters  disse Piper.  Ele  meu...
	Muito prazer!  exclamou Celeste, instantaneamente voltando a ateno para Piper.  Querida, eu soube que voc voltou para os Estados Unidos.  verdade?
	Sim, eu...
	Para quem voc est trabalhando?  perguntou a outra, agitada.
	No momento, para ningum  respondeu Piper.  Mas eu no...
	timo, eu quero que voc venha trabalhar para mim.
Piper olhou para ela em silncio. Nos ltimos meses, no pensara muito em seu trabalho, ocupando-se com o nascimento do beb e o problema da custdia. De repente, no entanto, o fato de Celeste Robinette querer contrat-la deu um impulso ao seu ego. Mas com um beb recm-nascido, um marido e uma enteada em sua vida, como poderia aceitar aquela oferta?
	Pense a respeito, est bem?  encorajou Celeste.

CAPTULO XI

	Celeste... eu no sei o que dizer  respondeu Piper. Ser convidada para trabalhar na Mstica pela famosa Celeste Robinette era realmente lisonjeador.
	Sim, seria um bom comeo  comentou Celeste com uma risada rouca.  Oua, eu tenho que voltar para a editora. Aqui est o meu carto.  Ela tirou um carto de visita do bolso do casaco.  Telefone para mim, almoaremos juntas e conversaremos, certo? 
Piper sorriu.
	Eu ligarei, obrigada. Foi bom ver voc de novo.
Celeste virou-se e saiu do restaurante sem olhar para trs.
Piper leu o que estava escrito no carto, momentaneamente atordoada. Levantando o olhar, notou a fisionomia carrancuda de Kyle.
	Desculpe  murmurou.  Celeste ... bem...  Ela riu nervosa. A expresso de Kyle permanecia fechada.  Eu fiz um trabalho free-lance para ela uma vez. Sempre que ela ia a Londres ou outra cidade da Europa, dizia que queria que eu trabalhasse com ela na revista.. Eu nunca a levei muito a srio.
	Ela me pareceu bastante convincente  comentou Kyle, mas antes que Piper pudesse responder, o garom chegou com os pratos.
Piper tomou um gole de suco e de repente percebeu que no tinha mais fome. Sentia-se derrotada. A alegria de ter vencido os Hunter havia se dissipado com o aparecimento inesperado de Celeste.
	H uma loja que vende mveis para bebs, no longe daqui  comentou Kyle um pouco mais tarde, enquanto caminhavam de volta para a caminhonete.  Voc ainda quer ir?
	Sim, por favor. A menos que voc prefira voltar para casa  replicou Piper.
Durante a refeio, Kyle se mantivera calado, reservado. Piper no entendia o porqu.
	Eu no tenho compromisso e acho que no deveramos voltar para casa de mos vazias  ponderou ele, enquanto destrancava a porta do carro.
Eles passaram mais de uma hora dentro da loja. Piper nunca tinha estado numa loja como aquela. Ficou espantada com a variedade de artigos para bebs.
Estava contente com a companhia de Kyle, que parecia ter recuperado o entusiasmo, ajudando-a a escolher os itens, recomendando alguns e descartando outros.
	Eu ainda tenho a cesta onde April dormiu nos primeiros meses  disse ele, enquanto olhavam para uma infinidade de beros e cestas para bebs.  Est guardada no sto, em brulhada em plstico. Se voc quiser, podemos us-la para Timothy. 
Piper virou-se para ele, sensibilizada.
	Obrigada, eu gostaria muito.
	Voc vai precisar de um cercadinho para quando ele crescer um pouco  lembrou Kyle.  Vamos dar uma olhada.
Ele a conduziu para outro departamento.
No final, Piper comprou um cercado, um trocador de fraldas e um carrinho, alm de um sortimento de lenis, toalhas, macaces e roupinhas e alguns brinquedos, incluindo um mbile de pssaros coloridos ao qual ela no pde resistir.
Kyle colocou todas as compras na caamba da caminhonete, e logo depois seguiram para Kincade.
	Voc se incomodaria de parar no hospital antes de irmos para casa?  perguntou Piper, quando alcanaram a periferia de Kincade.
Kyle lanou-lhe um olhar de soslaio.
	Est preocupada com Timothy?
	Eu sei que  tolice, mas apenas quero me certificar de que ele est bem. Eu nunca passei tanto tempo longe dele. Estou com saudade. Quero segur-lo um pouquinho.
Kyle deu-lhe um sorriso.
	No tem problema. Eu a deixo l, vou para casa, descarrego a caminhonete e depois volto para apanh-la.
	Obrigada  disse Piper, quando se aproximavam do hospital.
Kyle estacionou a caminhonete na entrada do hospital. Ento saltou do carro e deu a volta para abrir a porta do passageiro.
	Eu pego voc daqui a uma hora.
	timo  concordou Piper, incapaz de encar-lo.
Kyle esperou at Piper desaparecer dentro do hospital. Ento sorriu enquanto voltava a se sentar ao volante. Ela estava levando a srio o papel de me, passando todo o tempo livre no hospital com Timothy.
Todas as vezes que ele ia ao berrio, as enfermeiras lhe garantiam que seu filho estava bem. Seu filho... Mesmo no sendo verdade, um forte sentimento de amor e orgulho o invadia.
Ficara surpreso quando Piper lhe pedira para escolher o nome do beb, e comovido quando ela aprovara a escolha. Silenciosamente, fizera uma promessa de ser o melhor pai possvel para o menino.
Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por uma vozinha em seu ntimo. Tolo! Ele era apenas um pai temporrio. Quanto tempo duraria aquilo at Piper decidir acabar com o acordo? Essa era uma pergunta que no lhe saa da cabea desde que Celeste Robinette aparecera no restaurante.
Piper ficara contente em ver a amiga, mas ele tinha tambm observado a excitao que ela no pudera esconder quando a outra lhe oferecera o emprego.
E agora que os Hunter no eram mais uma ameaa, no havia razo para levarem aquele falso casamento adiante.
Uma pontada de dor apunhalou o corao de Kyle. Quando concordara em se casar com Piper, dissera para si mesmo que a estava simplesmente ajudando, fazendo um favor para uma pessoa especial. O que ele no queria reconhecer na ocasio, e nem mesmo agora, era que o verdadeiro motivo pelo qual concordara com o casamento era porque queria Piper para si.
Estava apaixonado por Piper Diamond. Perdidamente, irremediavelmente apaixonado. Para ser bem honesto consigo mesmo, havia se apaixonado muito tempo antes da noite em que Piper fora lhe pedir para fazer amor com ela.
Recordava-se nitidamente do dia em que a encontrara quando saa da biblioteca. Imaginava que ela teria, na poca, cerca de dezesseis anos, com um corpo que estava ainda desabrochando e se desenvolvendo. Mas foram os olhos o que mais o impressionara, aqueles ofuscantes olhos azuis, que brilhavam como diamantes.
Havia alguma coisa decididamente especial nela. Piper era como uma jia carssima, fora de seu alcance, um nvel acima das moas que ele conhecia, um nvel acima dele prprio.
No pela primeira vez, lembrou-se da noite em que ela lhe pedira para fazer amor. E se ele tivesse cedido  tentao?
O simples pensamento de fazer amor com Piper fez com que seu corpo ficasse tenso de desejo. Ainda podia sentir o gosto do beijo que haviam trocado poucos dias atrs no hospital, um beijo que fatalmente traara seu destino.
Com um suspiro, Kyle parou a caminhonete do lado de fora da clnica. Apoiando a cabea no volante, esperou que o corao disparado voltasse ao ritmo normal.
Ele amava Piper. E sabia, com uma certeza que desafiava qualquer entendimento, que a amaria pelo resto da vida.
Porm, enquanto a mulher que sempre desejara e a famlia com que sempre sonhara ocupavam seu pensamento, o tempo j estava se esgotando.
 Quando voc vai ao hospital buscar o beb?  perguntou April pela centsima vez, naquela manh. Piper sorriu.
	Assim que seu pai terminar de atender os clientes l em baixo  disse ela.
	Eu dormi mesmo nesse bercinho?  perguntou April, alisando a cesta de vime.
	Seu pai me disse que sim.
Os ltimos dias haviam se passado numa atividade febril. As enfermeiras no hospital tinham sido maravilhosas, dando a Piper conselhos teis referentes aos cuidados e alimentao de Timothy. Pouco a pouco, ela adquiria confiana em sua capacidade de tomar conta de um beb.
Ocupada entre a arrumao do quarto que ela e Timothy compartilhariam e as idas ao hospital para amamentar, ela no tivera muita oportunidade de ver Kyle.
Piper fechou a sacola com a roupinha e alguns utenslios necessrios que Timothy usaria na viagem para casa. Sentia um misto de emoo e ansiedade ao pensar que seu menininho logo estaria em casa. Cuidar de um beb vinte e quatro horas por dia, todos os dias, parecia, de certa maneira, assustador.
Calmamente, lembrou-se que, se precisasse de ajuda, com certeza poderia contar com Kyle. Afinal, ele j tivera uma experincia, com a prpria filha. Todavia, desde que voltaram de So Francisco, ele estava diferente.
Um clima tenso havia se estabelecido entre eles. O homem amvel, brincalho e incrivelmente prestativo que ela aprendera a amar desaparecera. Em seu lugar, estava um homem calado e distante que Piper no conhecia.
Ela estava perplexa com a falta que sentia de Kyle, de seu sorriso, de sua voz quando ele falava sobre o trabalho na clnica, porm, mais do que tudo, sentia falta da amizade que eles compartilhavam.
Apesar de ter se sentido grata pela oferta de Kate para ficar com April mais alguns dias depois do nascimento de Timothy, Piper ficou aliviada quando April voltou para casa. A presena da menina ajudou a dissipar um pouco a tenso.
O som da porta do apartamento se abrindo fez com que April sasse correndo do quarto.
	Papai, papai, estamos esperando voc h sculos!
Piper ouviu Kyle falar com ela.
	Desculpe-me, doura. Tive uma manh agitada. Contratei uma pessoa para me ajudar na clnica e estava mostrando tudo a ela  justificou-se ele.
	Quem , papai?
	O nome dela  Frankie. E amiga de Piper. Voc vai gostar dela  disse ele.  Onde est Piper?
	No quarto de Timothy  respondeu April.  Papai, porque a Piper est dormindo no quarto do beb? Por que ela no dorme com voc, como o pai e a me de Sabrina?
	Bem...  Kyle passou a mo pelos cabelos.  Piper quer ficar perto de Timothy para ouvir se ele chorar  noite.
	Mas a tia Kate ouve Cole sempre que ele acorda. No quarto dele tem uma bab eletrnica! Por que voc no compra uma para pr no quarto de Timothy? Assim, Piper pode dormir na sua cama.
Como que sentindo a presena de Piper, Kyle levantou o olhar. Ela engoliu em seco, sentindo o ar tornar-se tenso.
	Pronta para ir?  indagou Kyle com voz rouca, como se algo estivesse preso em sua garganta.
	Sim  confirmou ela, encenando um sorriso.
A tagarelice de April quebrou o silncio enquanto os trs se dirigiam ao hospital para buscar Timothy.
As enfermeiras fizeram um estardalhao com a presena de April, e o dr. Adamson apareceu para oferecer-lhes uma despedida calorosa.
De volta  clnica, Piper seguiu April e Kyle para dentro de casa. No alto da escada, Kyle permaneceu de lado para lhe dar passagem.
	Surpresa!
Assustada, Piper olhou boquiaberta para o grupo de mulheres reunidas na sala de estar. Fitas azuis estavam penduradas no lustre, e havia diversos bales amarrados em uma cadeira de balano. Empilhados na almofada acolchoada da cadeira, estava uma coleo de presentes embrulhados em embalagens brilhantes e coloridas.
Abraando o beb, ela sentiu as lgrimas inundarem seus olhos quando fitou as faces sorridentes.
Ol, querida  disse Nora.  D-me aqui o beb.  Ela tirou o menino adormecido dos braos de Piper. Ento voltou-se para Kyle:  Os homens esto esperando por voc na fazenda.
Kyle assentiu com um movimento de cabea e virou-se para Piper.
	Divirta-se. Eu vejo voc mais tarde  disse ele e, com um aceno, partiu.
	Eu no sei o que dizer  balbuciou Piper.
Kate a beijou no rosto.
	Ns achamos que esta seria uma boa maneira de dar as boas-vindas ao mais novo membro da famlia.
A garganta de Piper se apertou de emoo.
	 maravilhoso... Obrigada!
; Oh, querida, a caixa com seu equipamento fotogrfico e outros itens chegou ontem  informou Nora.  Seu pai a abriu. Achou que voc iria gostar de ter uma de suas cmeras para registrar este evento.
Piper sorriu.
	Obrigada. Eu deteria ter trazido uma comigo no avio 	disse ela.  Mas j tinha empacotado as coisas para mandar para c de navio.
Enquanto a tarde progredia, Piper carregou a mquina com um filme, surpresa ao descobrir o quanto sentira falta de sua cmera.
Timothy passou de colo em colo antes que Piper conseguisse lev-lo para o quarto para amament-lo. Depois o colocou no bero sem se atrapalhar nem um pouco.
April e Sabrina ajudaram Piper a abrir os presentes, entre os quais havia uma bab eletrnica. Para alvio de Piper, April no fez nenhum comentrio indiscreto, simplesmente afirmando que aquela era exatamente igual  do quarto de Cole.
Uma vez que os presentes foram abertos, Kate e Maura assumiram o papel de anfitris, servindo sanduches e bolos, caf e ch.
	Timothy acordou  anunciou Nora, uma hora mais tarde. 	Fique onde est, eu vou peg-lo  acrescentou ela.
A maioria das convidadas, incluindo a tia de Kyle, j havia partido. April e Sabrina estavam brincando no quarto de April, e Maura e Kate limpavam a cozinha.
Piper estava admirando um xale rendado que sua me lhe dera, quando Kate e Maura reapareceram.
	 quase um campo de batalha o que voc tinha l na cozinha  comentou Maura.
	Kate, Maura... Eu no sei como agradecer por tudo que fizeram por mim.  Piper levantou-se e deu um abrao caloroso em cada uma das cunhadas.
	Roupinhas para beb nunca so demais  disse Kate.  Algumas delas podem parecer muito grandes agora, mas acredite-me, logo, logo, serviro em Timothy.
	E aposto que voc tirou belas fotos  acrescentou Maura.
	Eu gostaria de ter as cpias  pediu Kate.  Oh, e adoraria se voc passasse na minha casa uma hora dessas para tirar uma foto de Cole e Sabrina para mim, talvez at mesmo um retrato de famlia.  uma pena que no haja um estdio na cidade onde se possa tirar um retrato profissional. Eles servem como presentes de Natal maravilhosos para os avs...
Ela falou a ltima palavra num sussurro e rapidamente se calou quando Nora se aproximou, com Timothy nos braos.
	Eu troquei a fraldinha dele  disse Nora, entregando o beb para Piper.
	Ser que ele quer mamar outra vez?  perguntou Piper indecisa.
	Ele no me parece estar com fome  observou Kate.  No est chorando... Fique tranquila que eles sabem muito bem avisar quando esto com fome. E pode ter certeza de que, em breve, voc vai conhecer o significado de cada tipo de choro.
	Verdade?  perguntou Piper, incrdula. Em seguida balanou a cabea.  Isso tudo  to novo para mim... Quando ele estava no hospital, as enfermeiras tinham uma programao, e isso ajudava. Mas agora que est em casa, eu me preocupo de fazer alguma coisa errada  confessou ela.
O sorriso de Kate estava cheio de compreenso.
Que me no se preocupa? Voc far tudo certo, Piper  assegurou ela.  Bem,  melhor eu chamar Sabrina, est na hora de ir.
Ela se afastou em direo ao quarto de April.
	Eu preciso ir tambm  disse Maura.  E tambm quero cpias das fotos.
Piper assentiu.
	Obrigada por tudo, mais uma vez.
	Oh, Piper querida, eu quase me esqueci  disse sua me poucos minutos depois que Kate, Sabrina e Maura tinham partido.  Chegou uma carta para voc esta manh. Eu a trouxe comigo. E agora, onde eu pus a minha bolsa?
	Est aqui.  April pegou a bolsa de couro azul-marinho ao lado da poltrona.
	Obrigada, querida  disse Nora.
Timothy estava comeando a se mexer um pouco.
	Posso segurar o beb?  perguntou April.
Piper hesitou, mas somente por um momento.
	Sim,  claro  respondeu ela.  Sente-se na poltrona e eu o colocarei no seu eolo.
April esparramou-se na poltrona e, depois de instru-la sobre como segurar a cabea do beb, Piper acomodou Timothy nos bracinhos ansiosos. April olhou para ele com orgulho.
	Onde est minha cmera?  disse Piper.
Na mesinha de centro, atrs de voc  apontou a me. Piper pegou a cmera e comeou a tirar fotos de April se gurando Timothy.
	Aqui est a carta  disse Nora Diamond, entregando o envelope a Piper.
Piper recolocou a mquina fotogrfica na mesa e deu uma olhada no nome do remetente. Era de Celeste Robinette, editora da revista Mstica.
	Estou indo embora, querida  avisou Nora.
	Obrigada pela cadeira de balano, mame, e pelo lindo xale.  Piper olhou rapidamente para April, antes de mover-se para dar um abrao em sua me.
	No h de qu  respondeu Nora.  Seu pai me presenteou com uma cadeira igual a essa quando Spencer nasceu. E at hoje ainda gosto de me sentar nela. Traz de volta uma poro de lembranas felizes.  Seu sorriso era emocionado.
O apartamento pareceu subitamente quieto e vazio depois que a me de Piper partiu. Ela se sentou no brao da poltrona, junto de April.
Pegando o envelope, rasgou-o e rapidamente retirou a carta. Celeste no tinha perdido tempo. Era a oferta do emprego. Se Piper aceitasse teria de se mudar para So Francisco, e o valor do salrio fez Piper arregalar os olhos.
Timothy comeou a chorar. Piper deixou a carta sobre a mesinha de centro e pegou o beb do colo de April.
Nesse instante a porta se abriu e Kyle entrou. April pulou da cadeira.
	Papai, Piper me deixou segurar Timothy, e ele ganhou uma poro de presentes na festa!
	Eu estou vendo  replicou Kyle, enquanto seu olhar percorria os presentes sobre a mesa.
Os gritos de Timothy se tornaram mais altos e insistentes.
	Bela cadeira de balano  comentou Kyle.  Quer que eu a coloque no quarto para voc?
	Sim, obrigada  respondeu Piper.  No se preocupe quanto ao resto, eu guardarei tudo mais tarde.
Kyle levou a cadeira de balano para o quarto, fechou a porta e voltou para a sala de estar.
	Papai, posso assistir  televiso no seu quarto?  perguntou April.
	Claro que sim, meu amor  concordou ele.  Mas s at a hora de dormir, est bem?
April se afastou correndo, e Kyle comeou a juntar os papis de embrulho e fitas espalhadas por toda a sala. Examinou os presentes e sorriu quando viu a bab eletrnica. Era uma pena que no tivesse utilidade, pensou ele.
Foi quando notou a carta sobre a mesa. Pegando-a, viu imediatamente que era assinada por Celeste Robinette. Uma caligrafia elegante e legvel.
Mesmo sabendo que aquilo era errado, Kyle leu a carta duas vezes. Seu corao quase parou quando viu a quantia que Celeste estava oferecendo. Piper seria uma tola se recusasse.
Teria ela, deliberadamente, deixado a carta sobre a mesa para que ele a encontrasse? No que isso importasse. Afinal, sabia que era somente uma questo de tempo antes que ela e Timothy partissem.
O sonho de ter a mulher que sempre amara e a famlia que sempre desejara tinha se realizado, porm terminara cedo demais. Muito mais cedo do que ele imaginara...

CAPITULO XII

Piper colocou Timothy na cestinha, ajeitou o babado do forro acolchoado e sentou-se na cadeira de balano, olhando para o filho adormecido. Uma sensao de plenitude tomou conta de seu ser enquanto se maravilhava com aquele pequeno milagre.
Havia algo profundamente gratificante na maternidade, no senso de ter uma famlia. Ela no se lembrava de se sentir to feliz desde que era criana, quando no tinha preocupaes e sua vida girava em torno dos pais e irmos.
Seu pensamento voltou para Kyle, e ela suspirou. Sabia que ele era, em grande parte, responsvel por aquela sensao de bem-estar e felicidade. Seria eternamente grata a ele por tudo que fizera, por ter concordado com o casamento e por ter afastado os Hunter.
Pensando bem, reconhecia agora que superestimara a ameaa dos Hunter. Pedir a Kyle para se casar com ela tinha sido uma atitude impulsiva e at mesmo precipitada.
Se soubesse antes, tudo que teria de fazer era dizer aos Hunter que a criana no era de Wes. Mas era contra a sua natureza mentir, e uma iniciativa como essa nunca teria partido dela. De mais a mais, temia que tivesse chegado o momento de encarar uma outra verdade.
Kyle viera em seu socorro como um cavaleiro em uma armadura brilhante, mas era bvio que no a amava. Uma pontada de dor atravessou seu corao. Talvez fosse melhor para todos que eles rompessem o acordo o mais breve possvel, antes que suas vidas se tornassem entrelaadas demais.
Mas, se fizesse isso, como seria sua vida? Para onde iria com Timothy? Certamente, no voltaria para a casa de seus pais, pois valorizava muito sua independncia.
Por um breve momento, cogitou sobre a possibilidade de aceitar a oferta de emprego de Celeste, mas logo descartou a ideia, pois conhecia bem a presso de trabalhar para uma revista como aquela, os horrios descontrolados, as viagens... Tinha de pensar em Timothy, agora.
Sabia que a maternidade seria um desafio sempre presente, mas o medo que sentira antes de dar  luz tinha diminudo, graas s enfermeiras e a Kyle, que a haviam ensinado a ter autoconfiana.
O dinheiro que havia recebido pela venda de sua parte na sociedade do estdio fotogrfico em Londres permitia-lhe comprar um apartamento, mas teria de ter um emprego para sobreviver.
Ento, de repente, lembrou-se do comentrio de Kate sobre a inexistncia de um estdio fotogrfico em Kincade. Se fosse dona de seu prprio negcio, poderia estabelecer seus horrios de acordo com as necessidades de Timothy. Possua todo o equipamento necessrio para abrir um estdio e coloc-lo em funcionamento.
A ideia a entusiasmou. Aquela seria a soluo ideal para sua vida, no entanto um sentimento de tristeza a invadiu diante da perspectiva de deixar Kyle e April, de abrir mo de uma famlia que to rapidamente aprendera a amar.
Por outro lado, o fato de permanecer em Kincade possibilitaria cumprir sua promessa de estar sempre presente na vida de April.
Com um ltimo olhar para Timothy, Piper saiu do quarto na ponta dos ps. Ouviu uma msica suave vindo da sala de estar e o som da televiso no quarto de Kyle. P ante p, encaminhou-se para l. Atravs da porta entreaberta, avistou April dormindo na cama do pai. Seu corao se apertou ao imaginar como a menina ficaria desapontada quando ela e Timothy fossem embora.
Na verdade, Kyle a prevenira sobre o problema desde o incio, mas ela s conseguia pensar nos Hunter tirando-lhe o filho. E, apesar de todos os contras, o prprio Kyle acabara aceitando. Isto tambm era algo que, desde o princpio, intrigara Piper. Ela gostaria de saber o que o levara a concordar. Parecia o momento ideal, agora, com April e Timothy dormindo, conversar com Kyle e esclarecer as coisas. Por onde comear? Ser que veria uma expresso de alvio no rosto de Kyle, quando lhe contasse seus planos?
Kyle, precisamos conversar.
Ao ouvir as palavras de Piper, o corao dele disparou, e Kyle respirou profundamente antes de encar-la. Viu uma sombra de tristeza nos olhos azuis.
	Sobre o qu?  perguntou ele, embora j soubesse a resposta. Tendo visto a carta de Celeste Robinette, sabia que era apenas uma questo de tempo antes que Piper viesse lhe comunicar que estava partindo, e no havia nada que ele pudesse fazer para impedi-la.
	Eu no sei bem por onde comear  confessou Piper nervosa. Ento segurou o encosto da cadeira da cozinha como apoio.  Timothy e eu... ns devemos muito a voc. Dizer "obrigada" no  o suficiente.
Ela encontrou o olhar de Kyle, mas os olhos cinzentos estavam indecifrveis. Ele enfiou as mos nos bolsos e permaneceu imvel e frio como uma esttua de pedra. Piper tentou outra vez:
	As coisas mudam. Algumas vezes, certas decises so tomadas pelos motivos errados. Novas oportunidades aparecem...
Ela parou de falar. Sabia que o que estava dizendo no fazia sentido. Kyle continuava a encar-la com uma expresso glida. Piper sentia a autoconfiana esmorecer. Intimamente, sabia que estava apenas lhe dando o que ele queria. Ela o deixava livre, livre para encontrar algum para amar para sempre, para compartilhar sua vida.
	Voc est fazendo o que  certo  disse ele, com um tom resignado.
	Sim, eu penso que seria perfeito para mim  respondeu Piper, aliviada por ele ter compreendido.
	 uma oportunidade maravilhosa  reconheceu ele.
	Eu acho que sim  concordou ela.  Simplesmente pelo fato que no h nenhum na cidade.
Mais uma vez, ela parou abruptamente. Em sua pressa de abordar o assunto, atropelara-se nas prprias palavras e no expusera sua ideia para ele. Mas ele parecia saber do que ela estava falando!
	Sem dvida,  uma oferta irrecusvel  prosseguiu Kyle.
Piper franziu a testa.
	Espere um pouco... Acho que estamos falando de coisas diferentes. A que oferta voc est se referindo?
Kyle arqueou as sobrancelhas.
	 oferta de emprego na revista, ora.
	Ah... sim.  Piper olhou para a mesinha de centro, onde deixara a carta de Celeste.  Voc acha que vou aceitar?
	Bem, no vai?  desafiou ele.
Ela balanou a cabea.
	No. Eu no falava disso, e sim de abrir um estdio fotogrfico aqui na cidade  declarou.
	O qu?
	Meu equipamento chegou ontem por navio  contou ela.  Minha me trouxe minha cmera para fotografar o ch de beb e... eu tirei algumas fotos, e Kate disse que  uma pena que no haja um estdio na cidade, aonde pudesse levar Sabrina e Cole para tirar retratos profissionais. Ento surgiu a ideia...
	Voc est pensando em abrir um estdio fotogrfico aqui em Kincade?  perguntou Kyle.
	Sim. O que voc acha?  perguntou ela, repentinamente vida pela aprovao dele.
	 uma tima ideia. Isso significa que voc permanecer na cidade?  perguntou ele, e desta vez Piper no teve dvida do alvio em sua voz.
	Bem, eu nunca disse que iria embora.
	No foi isso que veio me dizer?  indagou ele.  Agora que os Hunter no so mais uma ameaa, no h razo para continuarmos com esse... casamento de convenincia.
Ao ouvir aquelas palavras, Piper sentiu novamente o corao confranger-se. Por um breve momento, tivera a esperana de que Kyle lhe pedisse para ficar.
	Voc quer que eu v embora?  indagou ela, esperando provocar alguma reao nele.
	No importa o que eu quero  disse ele, bruscamente.
Um raio de esperana explodiu dentro de Piper. O fato de ele no ter respondido diretamente a sua pergunta era alentador.
Seu corao comeou a bater mais forte. Quando ele a beijara no hospital, no dia em que recebera alta, Piper soubera o que era paixo, sentira desejo por Kyle, e percebera que ele tambm a desejava.
E ento se lembrou das palavras dele na noite em que lhe pedira para casar-se com ela. Reconhecia que cometera uma tolice e que Kyle agira corretamente recusando-se a lev-la para a cama, oito anos atrs. No pense que no me senti tentado, foi o que ele dissera, mas no calor da discusso sobre o casamento de convenincia, o comentrio tinha sido esquecido. Se ele se sentira tentado naquela ocasio, era porque devia ter alguma atrao por ela. Porm, a dvida permanecia: ele ainda se sentia atrado?
S havia um modo de descobrir. Piper tentara isso uma vez antes, sem sucesso. Talvez pudesse arriscar novamente. Afinal, o que tinha a perder?
Aparentando uma calma que estava longe de sentir, Piper caminhou em direo ao homem que amava com desespero. Parou na frente dele, notando que o queixo dele tremia.
Corajosamente, ela o desafiou com o olhar.
	Piper... o que voc est fazendo?  perguntou Kyle.
	Eu quero que voc faa amor comigo.  A voz dela era rouca, com uma emoo contida. Sentiu a respirao ofegante e notou o olhar de desejo que apareceu por um segundo nos olhos dele.
	Que tipo de brincadeira  essa?  perguntou ele, visivelmente tenso.
Piper percebia que ele estava lutando para se controlar.
Respirando profundamente, aproximou-se e pressionou o corpo contra o dele, segurando-lhe o rosto com uma mo.
E, exatamente como fizera naquela noite, oito anos atrs, ela traou uma linha com a ponta do dedo, de sua face at o queixo.
.  Eu quero que voc faa amor comigo  repetiu com uma voz que nem ela mesma reconhecia como sua.
Kyle segurou a mo dela e afastou-a de modo brusco.
	Piper, o que voc pensa que est fazendo?
Ela sorriu e, mais do que nunca, teve certeza de que fazia a coisa certa.
	Eu esperava que talvez desta vez voc no me rejeitasse. Imaginei que agora pudssemos terminar o que comeamos naquela noite, oito anos atrs.
	Por Deus, Piper! Voc no sabe o que est dizendo.  O tom de voz era brusco, mas incerto.
	Devo entender isso como uma negativa?  indagou ela, dando um passo para trs, sentindo-se derrotada. Seu corao doa como se sangrasse, e lgrimas inundaram-lhe os olhos.
Ento, para sua surpresa, Kyle a enlaou nos braos e puxou-a para si, devorando-lhe a boca com uma ferocidade que lhe roubou o flego.
Piper deixou escapar um gemido abafado e correspondeu ao beijo com todo o amor que lhe inundava o corao.
Kyle parecia no acreditar no que estava acontecendo. Quando Piper caminhara em sua direo e lhe pedira para fazer amor com ela, pensara que estivesse sonhando.
Oito anos atrs, tivera boas razes para rejeit-la, principalmente pelo fato de ela ainda ser menor de idade e filha de uma das famlias mais influentes da cidade.
Mas ele a quisera por muito tempo e a amara por muito tempo tambm, e faltavam-lhe foras para deix-la partir pela segunda vez.
Kyle interrompeu o beijo e tentou controlar a respirao.
	Diga-me que no estou sonhando... Diga que isto  real...  O tom rouco da voz dele a fez tremer.
	E verdade... Ns dois no podemos estar sonhando. Voc me quer, voc realmente me quer  respondeu ela extasiada, o corao descompassado de alegria. Kyle sorriu.
	Sim, eu quero voc. Eu sempre a quis!
	E eu quero voc  disse Piper.  Somente voc.
Kyle ainda no estava convencido.
	Isso  o que voc est falando agora, Piper. Mas voc tem certeza? Eu sei que est agradecida pela minha ajuda, mas sou um homem simples, com um estilo de vida simples, e voc ...
	Eu sou o que, Kyle?  interrompeu ela.
	Voc  uma... socialite, uma fotgrafa famosa, que viaja pelo mundo, e a mulher mais bonita que j conheci. Por que escolheria ficar aqui e ter uma vida ao meu lado?
Piper percebeu o medo e a incerteza na voz de Kyle.
	Porque voc  o homem mais generoso, mais maravilhoso e querido que eu j conheci e porque estou perdidamente apaixonada por voc  declarou ela com sinceridade, e percebeu o brilho de felicidade que iluminou os olhos dele, tornando-os prateados.
Mas ainda assim ele recuou.
	Eu tenho que ter certeza, Piper, de todas as nossas decises, porque no quero v-la acordar'um dia desejando estar em algum lugar extico, tirando fotos...
	Se voc quer garantia, Kyle, eu no posso lhe dar  disse ela, sendo justa.  Tudo o que sei  que eu vi o mundo e tudo o que ele tem a oferecer, mas que agora ser me de Timothy e April e uma esposa de verdade para voc  o que eu quero,  tudo o que eu quero na vida. Eu no percebi o quanto desejava isso at encarar a possibilidade de me afastar de vocs. A perspectiva de ser me e cuidar de uma famlia ainda me apavora, mas se voc e April me aceitarem, e a Timothy, eu gostaria de experimentar essa nova vida.
	E claro que eu aceito vocs, Piper!  murmurou Kyle com gentileza, segurando o rosto dela entre as mos.
	Isso significa que voc me ama?  perguntou ela, subitamente ansiosa, precisando ouvir a resposta dos lbios dele.
Kyle riu e beijou-a rapidamente nos lbios.
	Sim! Eu te amo, Piper Diamond Masters. E acho que sempre amei.
	Oh, Kyle!  exclamou ela, enquanto as lgrimas ameaavam cair.
	Por que voc no disse nada? Pensei que quisesse que eu partisse.
	Eu nunca imaginei, nem por um momento, que voc pudesse me querer. E com Timothy a salvo, achei que no precisaria mais de mim  disse ele.
	Eu vou sempre precisar de voc, Kyle. Ns somos uma famlia agora, uma verdadeira famlia. Voc, eu, April e Timothy. Jamais esquea disso.
	Isso  tudo que eu sempre quis  confessou ele.  Voc  tudo que eu sempre sonhei.
Ele a beijou demoradamente, antes de pux-la para si uma vez mais.
	E Wes? Eu no estava certo sobre o que pensar. Se ele estivesse vivo, voc teria se casado com ele?  perguntou Kyle.
	No. Quando ele me perguntou se eu tinha certeza de que ele era o pai do beb, qualquer sentimento que eu pudesse ter por ele morreu.
	Oh, Piper, eu sei como  difcil uma separao  disse Kyle em tom compreensivo.
	E Elise? Voc ainda gosta dela?  perguntou Piper, precisando fechar as portas do passado de uma vez por todas.
	Na verdade, o meu casamento com Elise  que foi um casamento de convenincia  confessou Kyle.  Eu queria me estabelecer e comear uma famlia, e Elise achou que era o que ela queria tambm, mas quando ficou grvida, percebeu que tnhamos cometido um erro. Mas no tenho nada a lamentar. Como eu poderia lamentar, quando esse casamento me deu April?
	E ela  uma criana incrvel, to doce e generosa, exatamente como o pai  disse Piper.  Timothy tem sorte de t-lo como pai e April como irm. E eu estou to contente de ter voltado para Kincade...
	Eu tambm  disse Kyle.
Ele a beijou de leve nos lbios.
	Somos diferentes um do outro, Piper  disse Kyle. --- Acha que podemos fazer isso dar certo?
	No tenho nenhuma dvida que sim  replicou Piper.
	Eu espero que no seja um sonho  disse Kyle.  Se for, jamais quero acordar.
	No  um sonho,  pura realidade. Mas s para nos certificarmos disso, beije-me outra vez  provocou Piper.
O baixo rumor da gargalhada de Kyle invadiu-a de emoo.
	O que voc me pede que eu no faa, hein, sra. Masters?

FIM


